François Truffaut

 

François Truffaut

 

Criador de filmes inesquecíveis como O Garoto Selvagem e Os Incompreendidos, François Truffaut escreveu seu nome na breve História do Cinema como um dos mais importantes e prolíficos realizadores do cinema francês.

Cineasta das paixões, e tido por uns como o homem que melhor filmou o amor, Truffaut foi por toda a vida um admirador fervoroso do cinema. Não à toa, sua carreira teve início na crítica cinematográfica, em semanários de pequena tiragem e, mais tarde, na famosa Cahiers du Cinéma, do amigo e "padrinho" André Bazin, a quem Truffaut dedicaria, anos depois, seu primeiro longa metragem.

O crítico Truffaut sempre foi marcado por uma relação extrema de amor e ódio com os filmes. Ora seus textos eram delicados e surpreendentemente afetuosos, ora virulentos e furiosos, especialmente quando tratavam do que ele chamava de "cinema francês de qualidade". Em um de seus artigos mais notáveis, "Uma certa tendência do cinema francês", publicado em 1954 pelo Cahiers após meses de preparação, Truffaut ataca toda a escola cinematográfica francesa e seus diretores e roteiristas "com cheiro de mofo". Ao recusar toda a tradição vigente, o jovem Truffaut propõe um novo tipo de cinema calcado sobretudo na liberdade, desde a concepção do roteiro, passando pelas filmagens e locações até a edição final do material gravado. A crítica é endereçada aos grandes cineastas franceses de então, com seus filmes caros, épicos e quase sempre encomendados.

Não foi preciso muito tempo para que Truffaut resolvesse passar da crítica à prática. Após algumas experiências com curtas metragens - foram 3, um em colaboração com Jean-Luc Godard -, Truffaut decide rodar seu primeiro longa, no qual finalmente poria em uso as idéias apresentadas por ele anteriormente na imprensa especializada. É nesse contexto que surge Os Incompreendidos, em 1959, relato quase autobiográfico que introduziu aos espectadores o personagem Antoine Doinel, interpretado por Jean-Pierre Léaud e um dos mais célebres da história cinematográfica.

A inovadora estética de Os Incompreendidos veio a confirmar as palavras do jovem François Truffaut. Contando com muitas seqüências externas e planos longos (com destaque para o antológico trecho final do filme), Truffaut prova que é possível filmar fora do aparato técnico dos estúdios e com um orçamento bem mais reduzido, sem contudo prejudicar a qualidade final da película. E a concepção do roteiro, escrito pelo próprio Truffaut, vai de encontro a sua idéia de autoria, e contra a pura e simples "profissionalização" dos roteiristas. Ao inovar, Truffaut fundava sem saber a nouvelle vague francesa.

Truffaut nos conta que o termo não foi criado por ele, mas sim pela imprensa francesa, como uma necessidade de categorizar indiscriminadamente todo e qualquer tipo de filme produzido pela nova geração de cineastas, principalmente aqueles vindo da crítica impressa, como ele mesmo e Jacques Rivette. Dessa maneira, a nouvelle vague francesa adquiriu uma amplitude que permitia abrigar sob o mesmo teto cineastas das mais diferentes variedades, como Louis Malle, Jean-Luc Godard e Claude Chabrol, e ao mesmo tempo impediu que se criasse um padrão estético característico do movimento, como ocorreu por exemplo no realismo italiano de Rossellini.

Atirem no Pianista, o segundo filme de Truffaut, com Charles Aznavour no papel principal, não repetiu o sucesso do primeiro. A esse propósito, seria interessante lembrar que a carreira de Truffaut sempre alternou grandes sucessos com fracassos vexaminosos. Prova disso é que à história do pianista frustrado seguiu-se seu segundo êxito comercial, Jules e Jim - Uma Mulher para Dois, comovente retrato de um triângulo amoroso, estrelado pela exuberante Jeanne Moreau, uma das melhores amigas de Truffaut, e que ainda estrelaria uma outra produção sua, A Noiva Estava de Preto, cinco anos depois.

Em 1966, François Truffaut roda aquele que talvez seja o filme mais peculiar de sua carreira: a ficção científica Fahrenheit 451, um filme futurista e sobre o futuro. Consta que esse foi o mais trabalhoso de todos os projetos do cineasta, um fã do gênero e consumidor voraz de livros sobre o assunto (curiosidade: Truffaut participou como ator de Contatos Imediatos de Terceiro Grau, do amigo americano Steven Spielberg).

Em 1968, Truffaut retoma o personagem de Antoine Doinel, já revisitado no curta Antoine e Colette, e que agora reaparece em Beijos Proibidos, para ter sua saga finalmente completada, em 1970, com Domicílio Conjugal. Nesse meio tempo, o francês aproveita para filmar A Sereia do Mississipi e O Garoto Selvagem. O primeiro foi um retumbante fracasso, apesar das presenças da sempre bela Catherine Deneuve e de seu par Jean-Paul Belmondo. O segundo, ao contrário, foi aclamado por crítica e público, sensibilizados pela singela história do menino lobo e sua difícil relação com o mundo "civilizado". Contado de forma realista, mas, nem por isso, menos tocante, é bom ressaltar que O Garoto Selvagem em nada se parece com o filme da Disney de mesma temática.

Apesar do currículo já considerável, é apenas em 1973 que Truffaut surge para o mundo, quando seu filme A Noite Americana leva o Oscar de melhor filme estrangeiro, para o qual ele já havia sido indicado antes, com Os Incompreendidos. A Noite Americana é um belo filme sobre os bastidores do cinema, uma bem sucedida tentativa de desmistificar o ofício do diretor de cinema. É também uma das primeiras fitas a se utilizar da idéia do filme dentro do filme. No filme de A Noite Americana, Truffaut interpreta um diretor de cinema às voltas com os problemas da profissão, o que contribui para um resultado ainda mais realista. É a segunda atuação do cineasta, um tímido confesso (a primeira fora em O Garoto Selvagem, no qual ele encarna o Dr. Itard).

Até sua morte, em 1984 (decorrência de um tumor no cérebro), Truffaut ainda realizaria mais oito filmes, com destaque para o ingênuo Na Idade da Inocência e O Último Metrô, seu reencontro com Catherine Deneuve, uma de suas atrizes prediletas. Seu último trabalho foi De repente num Domingo, de 1983, com Fanny Ardant, sua última esposa e com quem ele teve uma filha.

Tivesse tido mais tempo, François Truffaut certamente teria feito ainda muito mais filmes, pois a cada um que filmava se envolvia em uma infinidade de novos projetos. Seus mais de vinte filmes são, no entanto, uma filmografia mais que expressiva, a obra de um diretor que consagrou o amor ao cinema. Truffaut amava os livros e os filmes, seus personagens e suas atrizes. Para ele, a vida estava na tela, e somente na tela podia-se fugir do vazio da vida. Não por coincidência, foi ele quem um dia disse que a vida é muito melhor no cinema. E é.

Mais informações sobre François Truffaut podem ser encontradas nos livros:

- Os filmes de minha vida, de François Truffaut - coletânea de artigos sobre cinema escritos por Truffaut entre 1954 e 1975. Ed. Nova Fronteira.
- O cinema segundo François Truffaut, org. Anne Gillain - elaborada seleção de entrevistas concedidas por Truffaut entre 1959 e 1984. Ed. Nova Fronteira.
- Hitchcock, de François Truffaut - célebre livro de entrevistas de Truffaut com o mestre do suspense, o americano Alfred Hitchcock.
- François Truffaut, uma Biografia, de Antoine de Baecque e Serge Toubiana - biografia do cineasta francês, rica em material iconográfico. Ed. Record.


FILMOGRAFIA

1954 - Uma Visita (Une Visite)
1957 - Os Pivetes (Les mistons)
1958 - Uma História das Águas (Histoire d'eau)
1959 - Os Incompreendidos (Les 400 coups)
1960 - Atirem no Pianista (Tirez sur le pianiste)
1962 - Jules e Jim - Uma Mulher para Dois (Jules et Jim)
1962 - Antoine e Colette (Antoine et Colette)
1964 - Um só Pecado (Le peau douce)
1966 - Fahrenheit 451 (Fahrenheit 451)
1967 - A Noiva Estava de Preto (La mariée était em noir)
1968 - Beijos Proibidos (Baisers volés)
1969 - A Sereia do Mississipi (La sirène du Mississipi)
1970 - O Garoto Selvagem (L'enfant sauvage)
1970 - Domicílio Conjugal (Domicile conjugal)
1971 - As Duas Inglesas e o Amor (Les deux anglaises)
1972 - Uma Garota tão Bela como eu (Une belle fille comme moi)
1973 - A Noite Americana (La nuit américaine)
1975 - A História de Adèle H. (L'histoire d'Adèle H.)
1976 - Na Idade da Inocência (L'argent de poche)
1977 - O Homem que Amava as Mulheres (L'homme qui aimait les femmes)
1978 - O Quarto Verde (Le chambre verte)
1979 - O Amor em Fuga (L'amour em fuite)
1980 - O Último Metrô (Le dernier métro)
1981 - A Mulher do Lado (Le femme d'a coté)
1983 - De repente num Domingo (Vivement dimanche)

 

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deTexto de
Diogo Henriques

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Julho 2001