|
Tori
Amos - Scarlet´s Walk
Um
passeio pelo país esquecido
Três
anos após o lançamento de seu último
álbum de músicas
inéditas, Tori Amos volta à
ativa com seu sexto trabalho solo, intitulado
Scarlet's Walk. De 99 pra cá,
alguns acontecimentos importantes marcaram a vida
da cantora: o nascimento de sua filha, o lançamento
de um disco de covers
nada convencionais e uma turnê pelos Estados
Unidos logo após os ataques terroristas
ao país. E é justamente o clima
pós-11 de setembro sentido nos shows que
mais a motivou a compor Scarlet's
Walk: o álbum narra a viagem
de Scarlet, alter ego de Tori, por cada estado
dos EUA, em busca de sua identidade, bem como
a de sua terra natal, que parece ter sido corrompida
ao longo dos anos. O resultado é um precioso
apanhado de 18 músicas, cada qual encerrando
uma etapa da jornada de Scarlet, durante ininterruptos
74 minutos.
Faixa-a-faixa:
#01.
"Amber Waves" (por Juarez
Bell)
O álbum abre com o piano e a voz de Tori
em "Amber Waves". Na história
de Scarlet, Amber, que vive em Los Angeles, é
a amiga e atriz pornô em fim de carreira.
O piano e o refrão, que mistura momentos
agitados e melancólicos, são os
destaques da música, que é ainda
marcada pelo verso "tell the northern
lights to keep shining" (um pedido de
Amber à amiga Scarlet: "fale para
as Luzes do Norte (Alaska) continuarem brilhando").
#02. "A
Sorta Fairytale"
(por João Pedro)
Uma das canções mais longas do CD
(e também o primeiro single, em versão
editada), "A Sorta Fairytale" narra
o encontro de Scarlet com alguém que ela
acredita ser "para a vida toda" - o
que logo percebe não ser verdade. A história
é narrada com piano discreto, muitos violões
e refrão pegajoso, além dos vocais
duplos no melhor estilo de Tori.
#03.
"Wednesday" (por Fábio
Nunes)
"Então vamos de ano em ano...".
Em "Wednesday", Tori fala sobre
um relacionamento longo porém turbulento
e complicado. Como se pode amar alguém
e ao mesmo tempo saber que existem segredos e
desconfianças? Diferentes razões
mantêm juntos os amantes, mas existe um
segredo que, cedo ou tarde, será revelado.
Enquanto isso, ela [Scarlet] vive sua rotina,
passeia pelos mesmos lugares, esperando por alguma
verdade. Isso a atormenta, cria confusão.
Ele bate a porta e vai embora. Mas eles estão
juntos, pois se amam. Ela precisa de ajuda pois
se sente perdida num lugar chamado América.
#04.
"Strange" (por Fernando
Passos Fico)
"Strange" é uma balada
romântica que trata do abandono e de como
fechamos os olhos à realidade quando nos
apaixonamos. Scarlet se entrega com tal intensidade
ao companheiro que só percebe a não-reciprocidade
de sentimentos tarde demais, quando abandonada
pelo mesmo. O clima melancólico é
sustentado pela presença de uma orquestra
de cordas, que faz da canção um
dos momentos mais bonitos do álbum.
#05. "Carbon"
(por Osni Hoffmann)
A letra da música fala sobre a personagem
Carbon (carbono), uma conhecida de Scarlet que
é maníaco-depressiva e está
pensando em suicídio. A letra trabalha
com o lado químico do elemento carbono,
e também fala sobre corridas de esqui.
Segundo a própria Tori, "tudo que
Carbon deseja é se desintegrar no nada.
Então é uma história extremamente
destrutiva. Assim como as pessoas arriscaram suas
vidas para manter sua terra sagrada, um desmoronamento
está para acontecer na vida de Carbon,
e uma dança à insanidade está
no horizonte. Ela está, em sua mente, numa
descida ladeira abaixo, e Scarlet tem que salvá-la
antes que ela se mate".
#06.
"Crazy" - (por Ricardo Lacerda)
Talvez a música mais romântica de
Scarlet's Walk, "Crazy"
é apresentada com vocais calmos, sugerindo
entrega incondicional, e passando uma sensação
de tranqüilidade que, certamente, não
é o que a maioria espera ao ler o título
da música. A canção é
pontuada por uma maravilhosa guitarra.
#07. "Wampum Prayer"
- (por Fernando Passos
Fico)
"Wampum Prayer", a menor e mais
simples faixa do álbum, é um cântico
relativo ao massacre ocorrido no Arizona com os
Apaches no final do século XIX. Cantada
a capela, traz em sua sonoridade religiosa toda
a dor e sofrimento de um combate sangrento que
deixou poucos sobreviventes e dizimou uma tribo
nativa americana. Mas, apesar de seu intenso significado
histórico, a canção não
se destaca entre as demais, dando a impressão
de um simples interlúdio.
#08.
"Don't Make Me Come To Vegas" (por
Diogo Henriques)
Os primeiros cinco segundos de "Don't
Make Me Come To Vegas" podem dar a impressão
de que estamos prestes a ouvir uma colaboração
de Tori Amos com índios de alguma parte
remota dos Estados Unidos. Mas tão logo
seu piano e voz entram em cena, não resta
dúvida: estamos diante de uma deliciosa
música de cabaré. Feche os olhos
e veja Tori perdendo imensas fortunas num cassino
no meio do deserto. Melancólica como as
demais canções em Scarlet's
Walk, "Don't Make Me Come To Vegas"
é ao mesmo tempo leve e divertida, sutil
em seus mínimos detalhes. O destaque fica
por conta do excelente baixo chorão de
Jon Evans.
#09.
"Sweet Sangria" (por
Eddie Schäfer
/ Fernando Passos Fico)
Os pedidos de Scarlet são atendidos e em
"Sweet Sangria" ela encontra-se
no Texas. Lá, conhece um revolucionário
mexicano. Mas por mais que Scarlet queira lutar,
ela percebe que não pode machucar pessoas
inocentes.
#10.
"Your Cloud" (por Fernanda
Machado)
Segundo a própria Tori, "Your Cloud"
fala sobre segregação - nativos
se separando da terra e suas histórias.
Entretanto, podemos entender a letra de um ponto
de vista mais simples. Se a retirarmos do contexto
político-histórico do álbum,
poderemos ver que "Your Cloud"
também fala da dificuldade de nos separarmos
de nossos grandes amores, quando isso é
inevitável.
#11. "Pancake"
(por João Pedro)
Na que é provavelmente a canção
com a letra mais agressiva e poderosa do disco,
Tori/Scarlet ataca um suposto messias: "posso
olhar o seu Deus nos olhos". Musicalmente,
a faixa é baseada no órgão
e não traz grandes inovações,
porém é indispensável no
contexto do disco, abrindo caminho para a faixa
seguinte "I Can't See New York":
"você a podia ter poupado, mas não,
messias precisam de pessoas morrendo em seu nome".
#12.
"I Can't See New York" (por
André Gabeh)
Em um disco de Tori Amos, beleza e subjetividade
vão estar sempre presentes. Em Scarlet's
Walk, entretanto, a cantora resolveu tornar-se
inofensiva, e na faixa onde algo mais visceral
poderia sair de sua garganta, as palavras parecem
vir de algum hino ou ode à América.
Se eu entendi o que ela quis dizer? Entendi! Se
eu achei bonito? Lindo! Belíssimo, mas
morno.
#13. "Mrs.
Jesus"
- (por Adriano Ferreira)
Aqui, a cantora aborda um dos seus temas favoritos,
a religião - ou o fanatismo, por assim
dizer. Na melhor tradição "Torizística",
a letra truncada torna certos trechos incompreensíveis.
Versos como "there's someone always paging
my mrs. jesus" me levam a crer que a
"Mrs. Jesus" do título é
ela mesma, do modo como é vista pelos fãs
mais ardorosos - os tais toriphiles. Não
se pode dizer que seja uma crítica a eles
- infelizmente não há nenhum verso
com "get a life". A base musical é
suave, inofensiva e agradável, assim como
quase todo o restante do disco.
#14. "Taxi
Ride"
(por Andre Levy)
Sem descaracterizar a linha melódica do
álbum, essa é definitivamente a
faixa com maior potencial pop de Scarlet's
Walk. Com vocais oníricos e um
refrão bem pegajoso, todos os seus elementos
musicais característicos continuam presentes,
mas dessa vez o piano perde destaque para os versos
agridoces da letra. Personagem ou não,
Tori traça aqui um ponto de vista realista
das relações humanas, falando de
carência e amizade sem a utopia de acreditar
na constância de seus sentimentos. "Even
a glamorous bitch can be in need".
#15.
"Another Girl's Paradise" (por Fernando
Passos Fico)
Em "Another Girl's Paradise",
a feminilidade exaltada na voz, nas notas do piano,
e na letra, cria uma atmosfera suave e agradável.
As mudanças de ritmo entre as estrofes
realçam a ambição da música,
cuja letra retrata o desejo, a inveja e a insatisfação
com o que se possui, aspirando-se sempre às
conquistas dos outros ("the thing one
girl fears in the night / is another girl's paradise").
#16. "Scarlet's Walk"
(por Eddie Schäfer)
Na faixa-título Tori Amos resgata o passado,
contando a história dos indígenas
que habitavam a América e foram expulsos
de suas terras. Isso está bem evidenciado
na primeira frase da canção - "Leaving
terra" -, que soa como um grito de socorro,
não apenas pelo exílio forçado
mas também pelo abandono de antigas tradições.
Em "Scarlet's Walk" Amos distribui
ainda belos acordes, de teclado e piano, mesclados
a poderosos e melódicos gritos.
#17. "Virginia"
- (por Gabriela Miranda)
"Virginia" nos apresenta um piano
forte e constante, como um leal companheiro, seguindo-a
em toda a sua extensão. A segunda voz,
emanada da própria Tori Amos, é
aguda, gritante, ousada e, ao mesmo tempo, macia,
nascendo e correndo junto com a voz principal.
O refrão traz esperança, sendo cantado
sem pausas, sem respiração. Quando
cessa, a sensação é do retorno
à calmaria, à reflexão, e
então a história volta a ser contada,
não sem a melancolia inerente a esta cantora
e sempre presente em seu piano.
#18. "Gold
Dust"
- (por Giselle Fleury)
Não poderia haver música melhor
para terminar Scarlet's Walk do
que "Gold Dust". Esta é
uma canção de fim de álbum
daquelas que deixam a nostalgia do fim nos tornar
melancólicos, das que deixam um gostinho
de "quero mais" no último segundo.
Enquanto Tori vai "congelando imagens e formas",
guardando fotografias do passado, podemos nos
deliciar com cordas e pianos que até lembram
Something To Remember (95), de
Madonna. Mas que só
lembram, pois, como a própria Tori diz,
"how did it go so fast?" nos
avisa que mais um álbum acaba. E com ele,
toda a nostalgia e sentimento que só ela
pode nos oferecer.
|