Tônica Dominante

Tônica Dominante
Lina Chamie faz cinema para relaxar

Por Daniel Libarino

A idéia da junção de cinema com música clássica já não é uma novidade nas películas brasileiras. Recentemente já foi expressada em La Serva Padrona.
Mas se o longa de Carla Camurati é praticamente uma ópera filmada, este Tônica Dominante coloca as canções como pano de fundo para os sentimentos intimistas do personagem principal. Honestamente, acho que "pano de fundo" nem seria o termo mais correto, pois as composições que embalam a produção servem também como apoio à estória; seria como o fator determinante para certos acontecimentos.


Mas seja qual for a expressão que melhor defina o universo metafórico de Tônica Dominante, o fato é que o filme surpreende. Surpreende pela sinceridade, pela simplicidade, pela sutileza, pelo lirismo e por todo clima poético que envolve a vida daquele garoto apaixonado - seja pela música, seja pela companheira de classe.

A diretora e roteirista estreante Lina Chamie (de formação acadêmica musical) mostra que está no caminho certo: seu domínio inteligente com a câmera já aponta um futuro garantido no cinema. A partir da interessante seqüência que inicia os primeiros créditos, mostrando um passeio pelos instrumentos musicais, ela passa a filmar três dias na vida de um garoto (Fernando Alves Pinto, ótimo) que tem aulas de música com uma severa professora (Vera Holtz, em momentos, exagerada), e que reprime um amor platônico sentido por uma bela colega de sala (Vera Zimmermann). As composições de César Franck, Schubert e Bach servem de elo para que as duas almas jovens e profundas tenham seu primeiro contato perante a sentimentos aprisionados.

Não que o filme não tenha problemas - peca, principalmente, pelo mal aproveitamento de seus personagens principais -, mas consegue um rendimento superior ao esperado. Isto porque não é todo mundo que sente um profundo amor pela música clássica (eu, inclusive), mas Tônica Dominante acerta por seus momentos acima das convenções. Não é todo dia que temos o prazer de assistir a uma realização tão bem produzida, com seqüências lentas, silenciosas e muito bem cuidadas, que transmitem um ar de lirismo raro, tamanha a beleza de suas imagens. Estas incluem uma tomada mostrando um deserto ensolarado, tomado pelo vento, embalada por belas composições.

Outro mérito da película foi a escolha do ator principal. Fernando Alves Pinto transmite ao espectador suas angústias, medos e sentimentos de modo fechado, magistral em sua sutileza encoberta por introspecção, mas que consegue expressar-se através de seu vasto talento musical. Uma pena que seu personagem, tão rico e profundo, tenha sido tão mal explorado pelo roteiro de Lina. Mas o grande desempenho do ator já vale o ingresso de Tônica Dominante, um filme para poucos, a ser apreciado com calma por amantes incondicionais - seja da música clássica, seja do bom e velho cinema qualitativo.


Tônica Dominante (Brasil, 2001).
De
Lina Chamie.
Elenco: Fernando Alves Pinto, Vera Zimmermann, Carlos Gregório, Vera Holtz. 80 min.

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Setembro 2001