"Ela
encontrou seu primeiro corpo numa escadaria"
(Neil Gaiman)
"Dias
como esse não se repetem.
Em
uma circunstância, disseram-me que a melhor
forma do ser humano livrar-se do peso, não
do corpo, mas da alma, é escrevendo. E
hoje estou me sentindo assim, pois a partir de
agora minha vida irá mudar. Se para melhor
ou pior, só o Deus, que me protegeu durante
essa longa caminhada, poderá julgar. Se
quero me afastar um pouco, de tudo e de todos,
é por atitudes que tomei, não por
livre e espontânea vontade. Mas por uma
questão de tempo.
Tempo sem emoção ou qualquer outro
sentimento que não a razão. Quando
olho para trás, lembro daquela arma apontada
em minha direção e só duas
opções possíveis: deixar
que aquela bala quente me perfurasse o peito,
como um abraço que lhe toma todo o corpo,
ou agir da forma que eu menos gostaria - tirando
a vida de um ser humano. E foi a segunda opção
que tomei.
Ver meu rosto no dia seguinte estampado em capas
de jornais ou ouvir meu nome na televisão
são coisas que não estão
me fazendo bem. Só não me chamaram
de vilã e assassina ainda por uma questão
de educação. Quando saio de casa,
os olhares dos vizinhos e desconhecidos me queimam
o corpo como se aquela bala tivesse me atingido.
Estou sendo crucificada a cada dia que passa.
Aquilo era um jogo em que alguém iria sair
perdendo. Mas será que ninguém se
colocou em minha situação? Coloque-se
em meu lugar! Não foi nenhum estuprador,
traficante ou bandido, mas sim uma pequena garota.
Uma menina de 14 anos que, cansada de ouvir comentários
maldosos de seus colegas e levar uma vida simples,
mas conturbada junto ao seu pai, rebelou-se contra
os alunos de sua sala de aula, os fazendo reféns.
Entrei na escola na tentativa de conversar com
ela, naquele corredor que parecia não ter
fim. Ela saiu com um olhar cabisbaixo e fitou
meu rosto. Seus olhos brilhavam como a lágrima
que escorria pela sua face. Simplesmente direcionou
aquele brinquedo que carregava, pronta para atirar,
em minha direção.
Quando apertei o gatilho do meu revólver,
tudo começou a acontecer em uma velocidade
diferente. A menina caiu e ficou imóvel
no chão. Havia acertado o lado esquerdo
do seu peito. Enquanto segurava minha arma, ainda
apontada para a garota, coloquei a mão
esquerda sobre sua boca e soltei um prolongado
suspiro de arrependimento. Ver aquela criança,
atirada ao chão, e a poça de sangue
que ia se formando, naquele imenso corredor de
paredes brancas e cinzas, me fez querer ficar
invisível ou voltar no tempo.
Em um piscar de olhos, um homem de camisa bege
semi-aberta e calça jeans entrou correndo
por uma das portas. Em minha direção.
Cheguei a me assustar, era a primeira vez que
o via. Três policiais entraram correndo
atrás dele. Ele passou por mim e foi até
a garota deitada no chão. Ajoelhou-se e
começou a chorar, dizendo para a menina
levantar-se, como se ela estivesse imersa em um
sono profundo. O pai a chamava de "meu coração
de ouro" e ficava se perguntando, sem conseguir
respostas, por que a garota havia feito aquilo.
Eu ainda não estava acreditando nos meus
atos, mas foi tudo tão rápido e
real. A primeira coisa que meus colegas fizeram
foi recolher a arma, que havia ficado a uns três
metros do corpo da menina, para que o pai não
pudesse usá-la contra mim.
Levaram embora o pai, que chorava como uma criança
sem o seu brinquedo favorito. E depois, ver o
corpo da menina, coberto por um pano branco, era
como assistir na primeira fila ao fantasma que
iria me perseguir durante o resto dos meus dias.
Estou com medo e me sentindo suja a cada instante
que lembro do que aconteceu e daquele rosto que,
mesmo em descanso, guardava um sorriso. Sinto
o cheiro de pólvora entre meus dedos e
meu relógio fazendo o barulho do tempo
que não posso parar, ou voltar, e nem saber
como as coisas serão de agora em diante...
Mas a decisão poderia ser a mesma, nunca
vou saber.
A maior tristeza é saber que aquela pequena
não vai conhecer as que coisas que conheci,
viver as alegrias que vivi e senti, mesmo que
estas tenham sido muito poucas. Não poderá
nem mesmo aprender com os seus erros. E tudo isso
porque lhe tirei a chance de viver. A única
lição que a ensinei foi a da morte,
plantando a dor no coração das pessoas
que a amavam. Acho que é hora de tomar
conhecimento que o erro também foi meu.
Perdoem-me.
Aquela bala... tomou sua trajetória e assinou
o meu destino....