"Agora
começou a chover de fato
E desta vez acho que é para sempre"
Clarice Lispector
Eu
tentava calcular o quanto aquela chuva ainda iria
durar naquele final de tarde. Poucos minutos atrás
o telefone havia tocado, mas eu não tive
certeza se era ela. Antes que pudesse de fato
reconhecer a sua voz, ouvi o barulho indiferente
do telefone sendo desligado.
Não sei se foi a chuva ou o telefonema
que me fez pensar nela, só sei que mais
uma vez me flagrei relembrando como Beatriz inclinava
o rosto para cima e deixava as gotas de chuva
caírem naquelas faces pálidas.
Quando a campainha tocou percebi claramente: seria
a última vez que a veria. Abri a porta
e Beatriz entrou sem olhar para mim, mas mesmo
assim pude perceber que a maquilagem ao redor
de seus olhos estava borrada. Talvez fosse por
causa da chuva, por ela ter inclinado o rosto
para cima mais uma vez; mas não, eu tinha
quase certeza de que desta vez ela havia finalmente
chorado. Chorado escondida, claro, porque Beatriz
jamais permitiria que a vissem chorar. Nem mesmo
quando, depois de dezesseis anos, ela visitou
o pai na prisão pela primeira e última
vez.
Na verdade não sei se eu era extremamente
ingênuo ou mórbido ao pensar que
sua personalidade não seria modificada
a partir daquele dia. Afinal, suas expectativas
em relação ao pai eram as piores
possíveis: ela imaginava encontrar um assassino,
cheio de culpas, com a barba por fazer e umas
poucas palavras frias para dizer. Ao invés
disso, Beatriz encontrou um homem castigado pela
solidão, um ser pequeno e frágil
torturado por todos os anos que passou sem o perdão
da filha, escrevendo seu nome em pedaços
sujos de papel e indo dormir todas as noites com
a frustração de não ter recebido
ninguém no horário de visitas. Ao
perceber a lágrima que se formava nos olhos
do pai, Beatriz começaria a se arrepender
do ódio que sentiu por ele em todos aqueles
anos. Ao mesmo tempo, ela jamais admitiria cultivar
algum sentimento de amor ou pena pelo assassino
de sua mãe, e o medo destes sentimentos
fez com que nunca mais o visitasse.
Beatriz abriu o armário à procura
dos últimos pertences que deixara no meu
apartamento. Um livro, dois prendedores de cabelo,
um maço de cigarro. Vasculhava as gavetas:
uma blusa, roupas íntimas, uma calça.
Partiu para a cozinha, deixando as portas do armário
abertas. Uma xícara. Na área de
serviço foi a vez da toalha estendida há
oito dias. Eu a acompanhava pelos cômodos,
ainda sem coragem para perguntar qualquer coisa.
Em outras ocasiões seria tão simples
dizer como tem passado?, ou então
o que você quer beber?. Mas
Beatriz não parecia receptiva a este tipo
de conversa. Agora procurava uma sacola onde pudesse
colocar todas as suas coisas, e embora eu soubesse
onde ela poderia encontrá-la, fiquei quieto
para observá-la por mais tempo. E constatei
que eu não conseguiria mais desvencilhar
a sua imagem daquela que me foi descrita dias
antes: a menina assustada, sentada na caminhonete
do pai esperando para voltar para casa. E quando
o pai voltou do lago dizia para ela: Está
tudo bem, a mamãe está descansando
e agora seremos só nós dois.
E a menina jamais iria se esquecer dos dias em
que passaria na caminhonete, com medo de que a
mãe aparecesse e brigasse com ela por ter
permitido que o pai a deixasse no lago. Paravam
em postos de gasolina onde Beatriz era levada
a banheiros sujos e comia sanduíches quase
mofados. Já não sabia mais o caminho
de casa, dependendo exclusivamente daquele homem
que dirigia para os cantos mais escondidos do
país e repetia: Eu vou cuidar de
você.
- Eu vou cuidar de você - eu disse para
Beatriz, quando certa noite ela chegara em casa
um pouco perturbada.
- Nunca me diga isso - ela falou, e eu quis saber
o por quê. Depois de muita insistência,
Beatriz cedeu e contou-me a sua história,
as suas lembranças infantis. A mãe,
o pai, o lago, a caminhonete. Contou-me tudo e,
ao mesmo tempo em que algumas coisas foram ficando
muito claras, eu não conseguia admitir
que era tudo verdade. Era difícil acreditar
que eu pouco conhecia daquela mulher com quem
vivia, que antes de me conhecer a criança
Beatriz já havia presenciado tantas situações
que eu não pude - e nem queria - compartilhar.
Beatriz achou a sacola e também encontrou
um par de chinelos. No banheiro constatou que
não havia mais nada seu. Quando percebi
que ela estava com tudo pronto para ir embora,
finalmente tomei coragem para perguntar:
- Aonde você vai?
Mas antes que eu terminasse de fazer a pergunta
Beatriz já havia batido a porta. E todos
os seus pertences estávamos naquela sacola.
Naquele dia comecei a perceber, mas foi somente
meses depois, ao ver a sua foto nos jornais, que
eu admitiria o que os outros sempre me alertaram:
- Que menina mais estranha...