Dias
felizes. Parece que um sorriso ou aquele suspiro
de paz que conforta de oxigênio todo o corpo
ficavam cada vez mais distantes, cada vez mais
impossíveis de se acreditar terem de fato
existido. Tudo era assim até... Tudo era
puro e simples. Não perfeito porque seria
impossível; mas as preocupações
eram sobre os malditos insetos, picadas de abelhas.
E como um monstro que se alimenta do nada, aquelas
pequenas maldições cresceram ao
ponto de apertarem em um nó sua garganta.
Ela, que se via envolta em nuvens brancas, descobriu
já tarde demais que as próprias
se tornariam negras, dissolvendo à atmosfera
o tom lúgubre de um fim de dia, no qual
não mais dia seguinte haveria. E o suspiro
que enche os pulmões de conforto seria
a desistência da luta pela vida, um basta
ao sufocamento por fumaça cinzenta.
Fora apanhada de surpresa, enquanto dormia no
colchão úmido por inverno rigoroso,
ainda antes do dia nascer. Mesmo com trovões
apocalípticos, mesmo com chuva incessante
e medo crescente, Magdalene estava confiante da
volta do reinado solar. E transportava-se pela
janela do carro durante a viagem ao destino ignorado.
Distante, sonhava que tudo aquilo era um pesadelo
de fim próximo. Mas ao sair do carro arrastada,
perdeu parte da esperança. Conheceu seus
indóceis companheiros de pesadelo. Um galpão
enorme, uma atmosfera pesada e milhares de almas
atadas à miséria. E, como inverno
glacial, os primeiros momentos de prisioneira
tremiam-lhe o corpo cansado. A saliência
no ventre timidamente escondia o ser que nasceria
sentenciado. Um pequenino espírito envergonhado
preso ao plexo solar, que rezava mas perdoava
- o fragmento de um futuro, uma promessa de miserável.
Como se o fim coletivo não lhe fosse o
bastante, após dividir sofrimento com companheiros
de cela, Magdalene e seus pecados foram apanhados
novamente e conduzidos a uma balsa. A balsa da
salvação, talvez. Ou do ardor do
fogo do inferno que a esperava a quilômetros
além da linha do mar. A incerteza e toda
a angústia causavam-lhe náuseas,
um choro bucal pelo perdido. Nunca enjoara em
viagem marítima.
A forte mulher que vivera seus dias dignos de
rainha, a doce e distante alma encoberta por um
semblante rude e respeitável, esmaecia
ao ritmo melancólico das águas.
E o passado a sobrevoar como águia à
procura do alvo perfeito, lança atirada
confundindo-se com beija-flor.
Atracou. A visão homogênea de rasa
grama com barro seco lhe embrulhou o estômago.
Longe da terra de origem, ainda se era possível
enxergar o amarelo-laranja-vermelho do fogo a
propagar-se pela costa afora. Um show em luto
à vista cansada de nossa heroína.
Fogos de artifício, preferia
ela pensar. Mas sabia da realidade, de fato.
Uma guerra, a violência de uma guerra sobre
sua cabeça. O estouro de bombas, o estouro
de neurônios. Gritos de dor da janela para
fora, sussurros confusos da janela para dentro.
Dia após dia de angústia, de pra-que-lado-correr.
De que lado estaria uma pobre mulher, cuja única
esperança era a de terminar seus dias pensando
na família que construíra com tanto
amor, sentindo o doce do beijo de uma neta? E
quão aguda seria a dor no peito de pensar
que esses dias poderiam não vir, o tão
sonhado futuro do ainda não nascido filho
nunca aconteceria? E que o próprio filho
talvez não viria à vida?
Pobre mulher. Pobre futuro, e pobre decisão.
Sentia-se suja e cruel. Sentia-se a dona da mentira,
a rainha da sucata no meio de bombardeios, ataques
aéreos e alvos certeiros à esperança.
De alma perfurada, agora sozinha com seu pequenino
pedaço de futuro incompleto. Já
sem mais olhos, sem mais cor ou vontade de se
mover. Apanhada, apunhalada, arrastando-se em
seus dias sob finas gotas de chuva que lhe pungiam
o corpo, pintando-se-lhe de vermelho.
Seu futuro é o presente, de fim aberto.
Como a um barco à linha do horizonte, não
haveria além para ela, mas a infinidade.
Presa ao agora e só, e às estranhas
sensações que acometem o fim de
uma vida. Vive. Erra. Teme. Paga: frases curtas.
Cada frase é uma sentença, e a falência
que as separa dos sentidos da palavra em si está
em seu próprio pensamento. O pensamento
é o que agora resta a Magdalene. Pensamentos
curtos. Pensamentos entrelaçados como pensamentos
que se prezem, porém interrompidos por
um vazio, um abismo ou um buraco de nada. A morte.
Só lhe resta o fim, a execução
ou o juízo final injusto e sujo. Espera,
pensa, chora, volta. Sente o mundo chover ao seu
redor. Sente o caos, as cabeças que rolam,
o aperto no estômago. Sente o soco e o vômito.
Sente o filho, o começo do fim, o fim de
um começo, ou o começo que jamais
acontecerá. Não há fé,
joelhos, devoção que vença;
é caminhar em adro decadente. Não
há céu azul, e aves pálidas
são negros explosivos. Negra fumaça
que faz ser nuvem, fogo que faz ser sol. A pólvora
semeia como maldito fruto entre corpos mutilados.
E rubras são as noites.
É injúria, é um rio de sangue.
De leito fundo e margens rasas, um rio vermelho
que suga vidas. Um céu vermelho, um piscar
e a decadência. Choveu sangue no dia aziago
de seu velório: cavou um buraco no meio
do nada, sentiu um estouro que atravessou o peito.
Um corpo caiu sem vida, no túmulo por si
mesma construído, afogando-se em eterno
tormento - pois trata-se de uma alma por demais
sofrida para Descansar Em Paz.
"Trapped
in purgatory
A lifeless object, alive
Awaiting reprisal
Death will be their acquisition"