Desconstruída

Desconstruída
Por Fernando Passos


Dias felizes. Parece que um sorriso ou aquele suspiro de paz que conforta de oxigênio todo o corpo ficavam cada vez mais distantes, cada vez mais impossíveis de se acreditar terem de fato existido. Tudo era assim até... Tudo era puro e simples. Não perfeito porque seria impossível; mas as preocupações eram sobre os malditos insetos, picadas de abelhas. E como um monstro que se alimenta do nada, aquelas pequenas maldições cresceram ao ponto de apertarem em um nó sua garganta. Ela, que se via envolta em nuvens brancas, descobriu já tarde demais que as próprias se tornariam negras, dissolvendo à atmosfera o tom lúgubre de um fim de dia, no qual não mais dia seguinte haveria. E o suspiro que enche os pulmões de conforto seria a desistência da luta pela vida, um basta ao sufocamento por fumaça cinzenta.

Fora apanhada de surpresa, enquanto dormia no colchão úmido por inverno rigoroso, ainda antes do dia nascer. Mesmo com trovões apocalípticos, mesmo com chuva incessante e medo crescente, Magdalene estava confiante da volta do reinado solar. E transportava-se pela janela do carro durante a viagem ao destino ignorado. Distante, sonhava que tudo aquilo era um pesadelo de fim próximo. Mas ao sair do carro arrastada, perdeu parte da esperança. Conheceu seus indóceis companheiros de pesadelo. Um galpão enorme, uma atmosfera pesada e milhares de almas atadas à miséria. E, como inverno glacial, os primeiros momentos de prisioneira tremiam-lhe o corpo cansado. A saliência no ventre timidamente escondia o ser que nasceria sentenciado. Um pequenino espírito envergonhado preso ao plexo solar, que rezava mas perdoava - o fragmento de um futuro, uma promessa de miserável.

Como se o fim coletivo não lhe fosse o bastante, após dividir sofrimento com companheiros de cela, Magdalene e seus pecados foram apanhados novamente e conduzidos a uma balsa. A balsa da salvação, talvez. Ou do ardor do fogo do inferno que a esperava a quilômetros além da linha do mar. A incerteza e toda a angústia causavam-lhe náuseas, um choro bucal pelo perdido. Nunca enjoara em viagem marítima.

A forte mulher que vivera seus dias dignos de rainha, a doce e distante alma encoberta por um semblante rude e respeitável, esmaecia ao ritmo melancólico das águas. E o passado a sobrevoar como águia à procura do alvo perfeito, lança atirada confundindo-se com beija-flor.

Atracou. A visão homogênea de rasa grama com barro seco lhe embrulhou o estômago. Longe da terra de origem, ainda se era possível enxergar o amarelo-laranja-vermelho do fogo a propagar-se pela costa afora. Um show em luto à vista cansada de nossa heroína. ‘Fogos de artifício’, preferia ela pensar. Mas sabia da realidade, de fato.

Uma guerra, a violência de uma guerra sobre sua cabeça. O estouro de bombas, o estouro de neurônios. Gritos de dor da janela para fora, sussurros confusos da janela para dentro. Dia após dia de angústia, de pra-que-lado-correr. De que lado estaria uma pobre mulher, cuja única esperança era a de terminar seus dias pensando na família que construíra com tanto amor, sentindo o doce do beijo de uma neta? E quão aguda seria a dor no peito de pensar que esses dias poderiam não vir, o tão sonhado futuro do ainda não nascido filho nunca aconteceria? E que o próprio filho talvez não viria à vida?

Pobre mulher. Pobre futuro, e pobre decisão. Sentia-se suja e cruel. Sentia-se a dona da mentira, a rainha da sucata no meio de bombardeios, ataques aéreos e alvos certeiros à esperança. De alma perfurada, agora sozinha com seu pequenino pedaço de futuro incompleto. Já sem mais olhos, sem mais cor ou vontade de se mover. Apanhada, apunhalada, arrastando-se em seus dias sob finas gotas de chuva que lhe pungiam o corpo, pintando-se-lhe de vermelho.

Seu futuro é o presente, de fim aberto. Como a um barco à linha do horizonte, não haveria além para ela, mas a infinidade. Presa ao agora e só, e às estranhas sensações que acometem o fim de uma vida. Vive. Erra. Teme. Paga: frases curtas. Cada frase é uma sentença, e a falência que as separa dos sentidos da palavra em si está em seu próprio pensamento. O pensamento é o que agora resta a Magdalene. Pensamentos curtos. Pensamentos entrelaçados como pensamentos que se prezem, porém interrompidos por um vazio, um abismo ou um buraco de nada. A morte. Só lhe resta o fim, a execução ou o juízo final injusto e sujo. Espera, pensa, chora, volta. Sente o mundo chover ao seu redor. Sente o caos, as cabeças que rolam, o aperto no estômago. Sente o soco e o vômito. Sente o filho, o começo do fim, o fim de um começo, ou o começo que jamais acontecerá. Não há fé, joelhos, devoção que vença; é caminhar em adro decadente. Não há céu azul, e aves pálidas são negros explosivos. Negra fumaça que faz ser nuvem, fogo que faz ser sol. A pólvora semeia como maldito fruto entre corpos mutilados. E rubras são as noites.

É injúria, é um rio de sangue. De leito fundo e margens rasas, um rio vermelho que suga vidas. Um céu vermelho, um piscar e a decadência. Choveu sangue no dia aziago de seu velório: cavou um buraco no meio do nada, sentiu um estouro que atravessou o peito. Um corpo caiu sem vida, no túmulo por si mesma construído, afogando-se em eterno tormento - pois trata-se de uma alma por demais sofrida para Descansar Em Paz.

"Trapped in purgatory
A lifeless object, alive
Awaiting reprisal
Death will be their acquisition"