Em
dias como esse não há em mim senão
o pensamento tedioso de que mais uma vez é
preciso começar. Simplesmente começar,
ainda que esses começos envolvam o fim
de coisas que eu nem sei dizer e cuja própria
existência me parece incerta e misteriosa.
Algo vai errado, é preciso mudar. Eis uma
de minhas certezas. Tão óbvia que
levou sete anos para ser percebida. A mudança
pode trazer sofrimento, sim. Mas aprendi, em uma
de minhas leituras na biblioteca, que a partir
de certa idade é preciso sofrer com qualidade.
Não sei por que digo isso, eu sequer faço
idéia da natureza desse aperto, que de
tempos em tempos me vara a carne trazendo um desespero
agudo e sombrio. Talvez haja uma palavra, ou uma
canção, mas enquanto eu não
a encontro, mantenho essa felicidade mórbida
de saber uma sensação apenas estranha,
particular, e, sobretudo, minha.
Há
duas semanas ele foi embora. Disse que não
voltava mais. Espero que tenha havido naquelas
palavras algo de verdadeiramente profético.
Tentei chorar, pensei em quebrar porcelanas, mas
para quê? Eu exultava por dentro! Me lembro
de ter acendido o cigarro e contemplado aquele
rosto cansado e surpreso, até o minuto
em que seus traços desapareceram por completo
entre os anéis de fumaça. Em cima
da mesinha da sala, presente de minha avó,
ficou o vaso de flores, indiferentemente belas
e perfeitas.
Mais tarde voltei à leitura de Fitzgerald.
Suave é a noite, mas prefiro pensar no
original em inglês, "Tender Is The
Night". Um livro tão belo quanto
o título. E um livro de tormentos.
Fitzgerald é meu autor favorito desde a
adolescência, quando li "O Grande
Gatsby". Se me exigem porquês,
logo me desespero. Mesmo as perguntas mais sutis
me deixam tonta. Me revolto, ora. Eu não
sei! Não é assim com as coisas boas?
Fico imaginando que a qualquer momento posso cruzar
com o Sr. Gatsby ali na esquina.
Há
cinco anos, desde que minha carreira de professora
de literatura se encerrou, venho fazendo pesquisas
para a editora em que trabalho. Estive em Nova
York no último verão e lá
passei 4 meses remexendo revistas e jornais antigos.
Um trabalho interessante, mas nem sempre produtivo.
Dessa vez tive sorte: encontrei contos raros de
John Steinbeck e Henry Miller. E nem era isso
o que eu procurava.
Já me passou pela cabeça muitas
vezes escrever meu próprio romance. Os
anos me trouxeram ótimas idéias,
mas todas se perderam em um mar de preocupações
mais urgentes. Talvez tenha sido o medo da mediocridade,
talvez apenas falta de empenho. Afinal, os grandes
escritores não gostam de dizer que literatura
séria é um trabalho duro como qualquer
outro?
Exatamente agora, tenho duas histórias
em mente, apenas à espera de papel e um
pouco de esforço. Uma delas conta as desventuras
de um sujeito que mata para comprar à namorada
bijuterias horrendas. A outra narra as peripécias
de uma taróloga charlatã que prevê
a própria desgraça em um programa
de televisão. Sua única previsão
certeira, é claro.
E já se vão 14 dias... Acho que
não era nada disso.
Ontem
o telefone quebrou o silêncio, era minha
prima Bete convidando para o seu casamento, daqui
a um mês. Quando tínhamos nossos
quatorze anos e morávamos ainda em casas
vizinhas, Bete e eu éramos amigas inseparáveis.
Dessas que dividiam tudo, até mesmo os
namorados (e essa era a melhor parte). Por bons
anos continuamos assim, até que, de alguma
maneira, e sem que nenhuma de nós pudesse
explicar, a distância que nos separava só
fez crescer. Primeiro ela se mudou, e depois os
telefonemas foram escasseando, se limitando às
datas formais. Eu sei que poderia ter feito alguma
coisa, e eu queria ter feito alguma coisa, mas
era difícil porque eu nem sabia por onde
começar. E talvez não houvesse nada
de errado no fim das contas, e aquilo fosse apenas
o curso natural (e cruel) dos acontecimentos.
Ontem mesmo não tínhamos nada a
conversar, e essa é uma angústia
que o tempo não diminui. Mas o que eu queria
dizer é que os casamentos me lembram velórios.
Daqui a um mês, Bete estará ainda
mais morta.
E
eu sei que eu quero outra coisa.
Não
é humano errar o tempo todo. Quando se
está triste, não adianta contemplar
a beleza das flores. Deve-se aproveitar a tristeza,
nenhuma tristeza é igual a outra. E toda
tristeza é boa, e necessária, e
nova como o dia que ainda não veio. Hoje
de manhã Carla me disse: Laura, como
você é sonhadora!. Talvez ela
tenha razão, mas é nas grandes ilusões
que a realidade encontra refúgio, não
é? Escrevo isso e vejo no instante seguinte
que não passa de um dogmatismo bobo. Heranças
da minha avó. Mas é que nos últimos
dias tenho pensado muito, ainda mais que de costume.
E o eco de tantos pensamentos às vezes
se cruza, e novos florescem, fazendo esse barulhinho
leve, como o ruído de duas bocas durante
o beijo. Passei a acreditar no inevitável.