O Casamento de Bete

O Casamento de Bete
Por Diogo Henriques


Em dias como esse não há em mim senão o pensamento tedioso de que mais uma vez é preciso começar. Simplesmente começar, ainda que esses começos envolvam o fim de coisas que eu nem sei dizer e cuja própria existência me parece incerta e misteriosa.
Algo vai errado, é preciso mudar. Eis uma de minhas certezas. Tão óbvia que levou sete anos para ser percebida. A mudança pode trazer sofrimento, sim. Mas aprendi, em uma de minhas leituras na biblioteca, que a partir de certa idade é preciso sofrer com qualidade. Não sei por que digo isso, eu sequer faço idéia da natureza desse aperto, que de tempos em tempos me vara a carne trazendo um desespero agudo e sombrio. Talvez haja uma palavra, ou uma canção, mas enquanto eu não a encontro, mantenho essa felicidade mórbida de saber uma sensação apenas estranha, particular, e, sobretudo, minha.

Há duas semanas ele foi embora. Disse que não voltava mais. Espero que tenha havido naquelas palavras algo de verdadeiramente profético.
Tentei chorar, pensei em quebrar porcelanas, mas para quê? Eu exultava por dentro! Me lembro de ter acendido o cigarro e contemplado aquele rosto cansado e surpreso, até o minuto em que seus traços desapareceram por completo entre os anéis de fumaça. Em cima da mesinha da sala, presente de minha avó, ficou o vaso de flores, indiferentemente belas e perfeitas.
Mais tarde voltei à leitura de Fitzgerald. Suave é a noite, mas prefiro pensar no original em inglês, "Tender Is The Night". Um livro tão belo quanto o título. E um livro de tormentos.
Fitzgerald é meu autor favorito desde a adolescência, quando li "O Grande Gatsby". Se me exigem porquês, logo me desespero. Mesmo as perguntas mais sutis me deixam tonta. Me revolto, ora. Eu não sei! Não é assim com as coisas boas? Fico imaginando que a qualquer momento posso cruzar com o Sr. Gatsby ali na esquina.

Há cinco anos, desde que minha carreira de professora de literatura se encerrou, venho fazendo pesquisas para a editora em que trabalho. Estive em Nova York no último verão e lá passei 4 meses remexendo revistas e jornais antigos. Um trabalho interessante, mas nem sempre produtivo. Dessa vez tive sorte: encontrei contos raros de John Steinbeck e Henry Miller. E nem era isso o que eu procurava.
Já me passou pela cabeça muitas vezes escrever meu próprio romance. Os anos me trouxeram ótimas idéias, mas todas se perderam em um mar de preocupações mais urgentes. Talvez tenha sido o medo da mediocridade, talvez apenas falta de empenho. Afinal, os grandes escritores não gostam de dizer que literatura séria é um trabalho duro como qualquer outro?
Exatamente agora, tenho duas histórias em mente, apenas à espera de papel e um pouco de esforço. Uma delas conta as desventuras de um sujeito que mata para comprar à namorada bijuterias horrendas. A outra narra as peripécias de uma taróloga charlatã que prevê a própria desgraça em um programa de televisão. Sua única previsão certeira, é claro.

E já se vão 14 dias... Acho que não era nada disso.

Ontem o telefone quebrou o silêncio, era minha prima Bete convidando para o seu casamento, daqui a um mês. Quando tínhamos nossos quatorze anos e morávamos ainda em casas vizinhas, Bete e eu éramos amigas inseparáveis. Dessas que dividiam tudo, até mesmo os namorados (e essa era a melhor parte). Por bons anos continuamos assim, até que, de alguma maneira, e sem que nenhuma de nós pudesse explicar, a distância que nos separava só fez crescer. Primeiro ela se mudou, e depois os telefonemas foram escasseando, se limitando às datas formais. Eu sei que poderia ter feito alguma coisa, e eu queria ter feito alguma coisa, mas era difícil porque eu nem sabia por onde começar. E talvez não houvesse nada de errado no fim das contas, e aquilo fosse apenas o curso natural (e cruel) dos acontecimentos. Ontem mesmo não tínhamos nada a conversar, e essa é uma angústia que o tempo não diminui. Mas o que eu queria dizer é que os casamentos me lembram velórios. Daqui a um mês, Bete estará ainda mais morta.

E eu sei que eu quero outra coisa.

Não é humano errar o tempo todo. Quando se está triste, não adianta contemplar a beleza das flores. Deve-se aproveitar a tristeza, nenhuma tristeza é igual a outra. E toda tristeza é boa, e necessária, e nova como o dia que ainda não veio. Hoje de manhã Carla me disse: “Laura, como você é sonhadora!”. Talvez ela tenha razão, mas é nas grandes ilusões que a realidade encontra refúgio, não é? Escrevo isso e vejo no instante seguinte que não passa de um dogmatismo bobo. Heranças da minha avó. Mas é que nos últimos dias tenho pensado muito, ainda mais que de costume. E o eco de tantos pensamentos às vezes se cruza, e novos florescem, fazendo esse barulhinho leve, como o ruído de duas bocas durante o beijo. Passei a acreditar no inevitável.