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A
Senha: Swordfish
Estilística
Por
Daniel Libarino

A
Senha: Swordfish será um filme
que ficará marcado nos anais do cinema
pipoca, pois, primeiro, John Travolta conseguiu
o que parecia ser tarefa mais que impossível:
trabalhar em algo tão péssimo e
retardado quanto seu A Reconquista.
Segundo, repetiu o fracasso nas bilheterias americanas,
assim como a bomba de ficção. Terceiro:
Dominic Sena termina por comprovar seu possível
lugar entre os diretores mais sem cérebro
e pés-frios de Hollywood. Quarto: o longa
parece ter 199 minutos de duração,
e não os 99 anunciados.
A sensação de arrasto é tamanha
que faz de A Senha: Swordfish um
filme para lá de insuportável. Como
não há um fio condutor convincente,
o filme tenta entreter com sua burrice estilizada,
incluindo um ônibus aéreo, sexo oral
com fetiches armados e computadorizados, perseguições
bocejantes e por aí vai. Há uma
frase, que foi a estratégia de venda de
outra bomba chamada Os Vingadores,
na qual dizia: "Salvando o mundo com estilo",
referindo-se à dupla de heróis da
respectiva fita. Se formos pensar, ela encaixa-se
perfeitamente no contexto de Swordfish:
cinema de aparências, onde o nada desfila
ao lado do vazio, dentro de suas roupinhas de
grife, com os diálogos mais vergonhosos
desde A Fortaleza 2.
Stanley (Hugh Jackman, de X-Men)
é um ex-mega-hacker que acaba de sair da
prisão. Morando só em um trailer
caindo aos pedaços, ainda amarga a perda
da custódia da filha, que ficou com a mãe,
agora atriz de filmes pornôs. Certo dia
recebe a visita de Ginger (Halle Berry, terrível),
a femme-fatale que lhe faz uma proposta irrecusável,
vinda de seu patrão, o espião Gabriel
(John Travolta, mais canastra, impossível):
apenas um trabalhinho a mais envolvendo seus dotes
hi-tech, e muito dinheiro na conta bancária.
Pensando se tratar apenas disto, o rapaz acaba
entrando numa fria inimaginada. Um agente da polícia
(Don Cheadle, de Traffic)
vai cuidar do caso. Agora, imaginem um filme de
ação que dá sono, parece
não terminar nunca e no qual os atores
estão mais perdidos que barata tonta. Imaginaram?
Pois bem, elevem ao quadrado e terão A
Senha: Swordfish. E o pior de tudo é
que a película começa muito bem.
Logo na primeira cena, o personagem de Travolta
fala sobre cinema, sobre como o público
médio gosta de filmes com finais certinhos,
cita, inclusive, Um Dia de Cão.
Pretensiosíssima seqüência inicial,
mas que funciona por causa, pasmem, do único
momento de inspiração de Dominic
Sena, utilizando-se de ângulos que revelam
pouco do que há ao redor de Gabriel, ou
das circustâncias que fizeram-no chegar
até lá. De quebra, somos nocauteados
com uma explosão filmada em bullet-time,
onda iniciada por Matrix. Não
é de se espantar, pois Joel Silver assina
as duas produções.
Mas
o que foi citado acima deve durar uns cinco minutos
apenas, A Senha... é constituído
por 99 (ou 199...). De resto, o que se vê
são tentativas frustradas de contornar
a falta de uma boa história, que vão
desde cenas absurdas e que ofendem a lógica
até algumas reviravoltas ridículas
e que não compensam, ainda, o roteiro esburacado.
Dominic Sena faz de tudo para manter a "classe"
e não deixar baixar o clima de sofisticação
que quis exprimir em seu mundo eletrônico-burguês;
suas obsessões são explícitas,
bastando apenas reparar na trilha-sonora tecno
(fraca, aliás). Mas acho que ele esqueceu-se
de cortar, na pós-produção,
a cena em que Hugh Jackman - na frente de seis
computadores - tenta bolar o vírus que
tanto deseja seu mestre. Mais constrangedora,
impossível.
No final das contas, a trama de A Senha...
chega ao famoso tema que Hollywood tanto adora
- e abusa: o terrorismo. Quer saber, terror maior
é assistir à este lixo sem tamanho
(e cérebro). Swordfish é o filme
da temporada, temporada dos atores mal dirigidos,
e só mais um exemplo de camuflagem cinematográfica,
vez ou outra bombardeada ao grande público
com egos extraordinários e propagandas
enganosas. O maior espanto de todos? A produção
não ficou por conta de Jerry Bruckheimer.
Dos males, o menor.
A
Senha: Swordfish (Swordfish, EUA, 2001).
De Dominic Sena.
Elenco: John Travolta, Hugh Jackman, Halle Berry,
Don Cheadle, Vinnie Jones, Sam Shepard. 99 min.
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