Doce Novembro

Doce Novembro
Amor clichê

Por Daniel Libarino

O filme começa. Após alguns créditos iniciais, ele, Keanu Reeves, sem camisa, levantando de mais uma transa com uma qualquer, provoca suspiros incondicionais na platéia feminina que lotou a sala de cinema durante a sessão de Doce Novembro, refilmagem de Por Toda Minha Vida, de 68. Seria muito ingênuo da parte de alguém não reconhecer que o possível sucesso da fita aqui no Brasil será por conta da presença do astro de Matrix. E melhor (ou pior) ainda: em mais uma comediazinha romântica açucarada que o público médio tanto adora. Nada contra o gênero. Afinal, temos, só para citar alguns, Um Lugar Chamado Notting Hill e Mensagem para Você, produções neste estilo e que estão à léguas de distância desta aqui criticada.

O problema está, logo de cara, na escolha dos atores. Nada contra Charlize Theron - uma boa atriz que só está entrando em frias -, mas Keanu foi uma péssima escolha. Um ator inexpressivo e sem sal como este deveria estar é atrás de todos os efeitos especiais que algum Velocidade Máxima da vida teria como principais atributos, cobrindo assim sua má performance. Em outro gênero, ele não convence. Temos também a direção irregular de Pat O´Connor e o roteiro batidíssimo, fruto da idéia de algum produtor engravatado que almejou alguns milhões a mais em sua conta bancária. Se deu mal: Doce Novembro foi um retumbante fracasso de bilheteria nos Estados Unidos.

Também não foi por menos. O filme só irá agradar àqueles românticos incondicionais, para os quais qualquer passo em falso (um menininho inocente, uma tragediazinha) já é motivo para uma choradeira interminável. E os personagens são (novamente) meros clichês. Temos Nelson Moss (Reeves), um publicitário "workaholic" que não tem tempo nem para renovar a carteira de motorista. Só vive para o trabalho, deixando as relações afetivas mais duradouras de lado (a primeira cena já demonstra o fato). Há também a moderninha Sara Deever (Theron, em personagem esquisofrênico), uma garota que escolhe um cara por mês para morar junto com ela. E novembro é a vez de Nelson. Após algumas tragédias pessoais, o moçoilo decide aceitar a proposta da maluquinha, que conheceu anteriormente, justamente no dia em que conseguiu um tempinho para a renovação de sua carteira de habilitação. E por aí vai.

O que surpreende em Doce Novembro são alguns bons momentos decorrentes de fatos interessantes que aparecem no meio do caminho, mas que acabam perdendo efeito devido aos acabamentos mal feitos do roteiro para cada boa cena que nos é apresentada. Fica aquela sensação de desperdício e de vai e volta constante (duas estrelas, uma estrela, duas estrelas, uma estrela...). E temos ainda a injustificável presença da canção "Only Time", de Enya, na trilha sonora. A impressão me foi de uma frustrada tentativa de dar um ar mais sofisticado, intelectualizado e menos convencional à trama velha e insípida. Lógico, com um roteiro destes, nem as belíssimas composições dão uma certa dignidade.

Acredito realmente que Doce Novembro fará bela carreira no Brasil. Há o galã que todas idolatram, a historinha água-com-açúcar, os elementos caninos e infantis que cativam qualquer ser dotado de coração, os diálogos batidos que extasiam os sonhadores de plantão e o desenvolvimento simples para não machucar as esperanças do espectador médio. Está tudo aí, do mesmo jeito como já esteve antes, prontinho para consumo rápido. E ainda é muito pouco. Porque, logo na metade, este Doce Novembro acaba virando um Amargo Pesadelo.


Doce Novembro (Sweet November, EUA, 2001).
De
Pat O´Connor.
Elenco: Keanu Reeves, Charlize Theron, Jason Isaacs, Greg Germann. 119 min.
Site Oficial

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Setembro 2001