|
REM
- MTV Unplugged 2.0
Por
Giselle Fleury
A
maturidade serve, entre outras coisas, para permitir
que façamos coisas que já fizemos
no passado, só que melhores. Isso quer
dizer que nunca deixamos de ser crianças,
apenas aperfeiçoamos nossas atitudes, dosamos
nosso falar, nos encaixamos no modelo social em
que vivemos, mas nunca esquecendo de fazer o que
sempre fizemos e, com sorte, gostamos de fazer.
Toda essa explicação psicológica
tenta ilustrar o porquê de uma banda conseguir
superar a si mesma. E, além disso, consegue
provar que maturidade é isso mesmo que
tentei definir.
Após 10 anos da primeira versão
do MTV Unplugged, o REM gravou sua segunda aparição
este ano. Apesar da MTV Brasil não ter
passado, esta que vos fala tem o prazer de dizer
que já assistiu, graças à
agilidade da MTV Latina e da boa vontade de um
amigo para gravar para mim.
Das dez músicas que foram ao ar, duas fazem
parte de Reveal.
O resto é só saudade. E saudade
revista em conceitos e em arranjos, porque nada
do que o REM mostrou nessa nova versão
de seu acústico é igual ao anterior,
de 1991. Nem mesmo a versão de "Losing
my Religion", a única que aparece
nos dois.
O cenário, por si só, já
é um espetáculo à parte:
um telão deixa rolando a primeira versão
do programa, e Stipe até brinca ao se ver
de boina dez anos mais novo ("Olhem para
este homem, ele parece tão sincero...").
E uma nostalgia geral nos abate todas as vezes
que a imagem do telão é Bill Berry.
Entretanto,
é o repertório o maior responsável
pela magia de Unplugged 2.0 (como a MTV está
chamando o programa). Desde o longínquo
Reckoning até o novíssimo
Reveal, passando por Life's
Rich Pageant e o já clássico
Out of time, a banda selecionou
músicas que se encaixaram perfeitamente
no formato acústico. Muito embora cada
uma delas pertença a uma época bem
diferente da outra, até mesmo para a referência
de REM que temos, todas soaram hits, todas eram
atuais, inclusive nas letras. Prova disso foi
o pequeno discurso e a expressão de absoluta
indignação de Stipe ao introduzir
uma das melhores músicas da banda, "Cuyahoga"
("Life's Rich Pageant"). Ele
se lembrou de ter visto um anúncio sobre
a intenção de George W. Bush em
começar o século XXI ousando cientificamente,
ao ponto de testar a manipulação
da energia nuclear para que ela possa se tornar
um bem de consumo, e então decidiu incluir
a música no repertório. Nada mais
apropriado para uma letra que diz "vamos
colocar nossas cabeças juntas e construir
um novo país / debaixo da cabeceira do
rio nós o queimamos até sua destruição".
A referência primeira são às
inúmeras tribos indígenas mortas
covardemente na época da colonização
americana, mas o tema é tão universal
e atual que, trazido para agora, poderíamos
achar que a história era outra.
Mesmo sendo um dos pontos altos do acústico,
muitas outras canções se destacam
na seleção. "Electrolite"
(de New Adventures in Hi-FI) ficou
fabulosa, com direito a percussão e tudo;
"Daysleeper" (Up)
e "So. Central Rain" (Reckoning)
soaram bem parecidas com as versões originais,
em grande parte graças ao piano de Mike
Mills. Já as novas, "All the way
to Reno (You're gonna be a star)" e "Imitation
of Life", ganharam uma cara de balada
tanto quanto a já balada "Find
the river" (Automatic
for the People), que fecha o programa.
Talvez, pela exaustiva execução
nas rádios, "Imitation of Life"
tenha ficado tão melhor do que a versão
original. Ou talvez seja apenas o carisma de Michael
Stipe.
 |
Pelo
meio do programa, Stipe avisa que vão
tocar uma música "muito triste,
de fato". E os primeiros acordesnão
deixam dúvida de que trata-se de "Country
Feedback" (Out of time).
O que poderia ter deixado o clima pesado,
tornou-se o momento mais sublime. A voz de
Stipe chega a vacilar de emoção,
tudo soa como um adeus. A seqüência
"I was central / I had control / I
lost my head / I need this" quase
apaga os instrumentos, tamanha é a
força de seu significado. Mas o violão
dedilhado de Buck e o piano de Mills provam
porque esta banda de eternos garotos, agora
vestidos com ternos, sempre vai ter seu lugar
no coração dos fãs e
na essência da imprensa. Não
importa quantos anos passem, eles sempre estarão
em algum cantinho tocando e cantando para
corações apaixonados, para pessoas
politizadas ou para crianças. Enfim,
tocando para seres humanos. |
|