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Relógio
de parede
Por Elen
Cuña
Não
era a primeira vez que se surpreendia acordada
naquela madrugada. Tinha a impressão de
que nem dormira, de que as horas estavam demorando
demais para passar. Queria que os raios de sol
entrassem logo pelos diversos furos da cortina
velha; talvez eles a trariam algum conforto e
segurança, de que tanto precisava. Imaginou
que fosse embora na manhã seguinte satisfeita
por não ter acontecido nada, mas este pensamento
só servia para esconder o seu medo de fracassar.
Afinal, se já estava ali, era para chegar
até o fim.
Sentiu um calafrio percorrer sua espinha no momento
em que concentrou-se no barulho rítmico
do antigo relógio de parede. Ele estava
ali, incansável e prestativo, alheio a
qualquer sentimento seu. Ela então escondeu-se
debaixo do lençol. Era uma noite quente,
mas mesmo assim não permitiria que nenhuma
parte de seu corpo ficasse descoberta. Tentou
dormir, mas foi em vão: o menor dos barulhos
a fazia arregalar os olhos. O que estava acontecendo?
Uma lembrança induzida fez com que ela
ignorasse o relógio por alguns instantes.
Concentrou-se nos esforços de sua memória
para recuperar os fatos ocorridos ali seis anos
antes, naquele mesmo quarto, naquela cama que
aparentava ser muito maior do que realmente era.
Desde então nunca voltara lá, e
já estava quase convencida de que não
deveria ter voltado naquela noite.
Do lado de fora, em algum lugar do jardim, havia
uma coruja. Ela conseguia escutar seus ruídos
e acompanhar seus curtos vôos. Não
se lembrava de que a noite ali era tão
repleta de animais noturnos, tão escura
e intensamente misteriosa. Agora estava com calor
mas não queria tirar os lençóis;
ele poderia estar observando-a naquele exato momento.
Foi quando sentiu, perfeitamente, sua presença
ali. Ele estava em algum lugar do quarto, talvez
estivesse deitado ao lado dela.
- Gabriel? - sua voz saiu muito baixa e ela apertou
as mãos contra o peito, como se tentasse
proteger o coração.
Nenhuma resposta. Apenas o tic-tac que a fazia
estremecer.
Os olhos enormes fitavam o armário à
sua frente, eles podiam até distinguir
as maçanetas das portas. E a sensação
de ter Gabriel ao seu lado tornou-se ainda mais
nítida, ela quase sentia a cama se movendo,
como se alguém ali estivesse virando-se
para olhá-la. Novamente foi tomada por
um súbito medo, um medo idiota que não
poderia sentir, afinal fora até ali justamente
para tentar encontrá-lo. E agora, que estava
tão perto de unir-se novamente ao amor
de sua vida, ela hesitava em olhar para o lado.
Ele estava ali, ela sabia, mas não queria
vê-lo. Talvez ele ainda guardasse as cicatrizes
nos pulsos, talvez já a tivesse esquecido,
talvez estivesse com raiva dela por não
ter feito a sua parte do combinado.
Virou os olhos lentamente para o lado direito
da cama, temendo o que iria encontrar. Não
viu nada, mas sabia que se esticasse o braço
poderia tocá-lo, sim, porque ele estava
ali. Mas ela ainda hesitava, precisava ter certeza
de seu perdão. E quando fechou os olhos
pôde senti-lo acariciar seus cabelos, enrolando-os
entre os dedos como sempre costumava fazer. Ela
então sorriu e o medo foi embora. Estava
pronta para finalmente cumprir o combinado.
O barulho do relógio estava agora muito
distante, quase sumindo, apenas um ruído
que se esvaía como em sonhos. Adormeceu
enquanto o branco do lençol era vagarosamente
tomado pelo vermelho de seu amor.
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