O Quarto do Filho

O Quarto do Filho
A dor da saudade

Por Daniel Libarino

Outro dia, estava lendo uma matéria sobre a morte. Nela, monges budistas contavam sobre o quanto ficaram impressionados, em uma visita ao Ocidente, com a falta de preparo dos ocidentais para lidar com a perda da vida. Verdade. Para boa parcela de nós, a morte ainda é uma coisa aterrorizante. Um dos motivos para isso é o nosso extremado apego à vida material e o pouco caso que fazemos da educação espiritual. Afinal, a morte é um acontecimento tão natural quanto o nascimento; todos nós, a partir do momento em que ganhamos vida, sabemos que ela terá fim algum dia; a partir do momento em que chegamos ao mundo, sabemos que começa o nosso processo de envelhecimento. Independentemente da religião que cada pessoa tem, para os monges, é preciso uma maior familiarização com a perda, com o inevitável destino de cada um de nós.

O cinema tem um papel fundamental em tornar a vida mais transparente. A perda de algo (ou alguém) amado já foi cicatrizada recentemente em Amores Brutos. Curiosamente, porém, têm chegado às telas brasileiras, sucessivamente, produções que abordam as diferentes reações de um sujeito frente à morte de um ente querido. O francês Sob a Areia retratava o tema de modo um pouco distinto, pois ali se tratava, inicialmente, de um desaparecimento, que provoca mais dúvidas que rancor. Sua ligação com os demais, contudo, pode se resumir em uma frase: "Meu Deus, o que faço agora?". Entre Quatro Paredes engatinha com o mesmo espírito desesperador; pena que seu resultado também o seja. Dentre todos, o que mais assombra nosso tênue despreparo é O Quarto do Filho, drama italiano vencedor da Palma de Ouro em Cannes em 2001.

Em poucos minutos de projeção, fica fácil notar que se trata de um trabalho feito com extremo esmero. Nanni Moretti dirige, roteiriza e comove com seu personagem perdido entre as letras da frase entre parênteses acima, em um delicado retrato da dor da perda. Se comparado com os outros dois títulos já citados, O Quarto do Filho certamente larga na frente, principalmente por sua transparência (pouco explorada na produção francesa) e sinceridade (longe do resultado postiço de Todd Field), lembrando que o filme está longe do sentimentalismo exagerado que pontua muitas das atuais produções italianas ultimamente, e contando ainda com uma sutileza de diálogos que em pouco nos faz recordar a cinematografia do país.

Se isto ainda não o convenceu de que O Quarto do Filho facilmente encabeçará a lista dos melhores filmes do ano, atente para o fato de que se trata principalmente de um trabalho de meditação, de lavagem espiritual, aquela mesma que os monges nos aconselharam na matéria da revista. Moretti não só incorpora personagens envoltos na atmosfera labiríntica da surpresa como também dá ainda carta branca para o espectador analisar a situação, seus personagens e, acima de tudo, ele próprio. Ao filmar o drama de uma família lidando com a morte de um dos filhos, o diretor escapa à tentação de fazer um filme de auto-ajuda moralista. Nada contra os filmes bem realizados do gênero. Mas Moretti vai além do chavão, construindo um caminho sem atalhos, regras ou soluções aparentes. Há justamente uma inversão do processo: aqui, o diretor se permite afirmar que nem sempre a perda de alguém provoca a união dos demais que estavam à sua volta.


O Quarto do Filho (La Stanza del Figlio, Itália/França, 2001).
De
Nanni Moretti.
Elenco:
Nanni Moretti, Laura Morante, Jasmine Trinca, Giuseppe Sanfelice, Silvio Orlando. 98 min.

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Março 2002