Pearl Harbor

Pearl Harbor
Nova bomba made in "Egocentricwood"

Por Daniel Libarino

Vamos direto ao assunto: Pearl Harbor já é, sem dúvida nenhuma, candidato aos piores do ano. E ainda arrisco um lugar entre os vinte piores do século. Não dá. Realmente, engolir um sapo como este foi tarefa quase impossível. Lá pelas duas horas e pouco de projeção minha paciência já havia se esgotado por completo. Aguentar o resto foi uma tortura insuportável. Hoje em dia, esperar algo bom de Jerry Bruckheimer, ou mesmo do diretor Michael Bay, já virou pura ilusão. Toda expectativa que sempre ronda suas produções antes da estréia torna-se mero papo furado ao final das respectivas sessões de cinema. Aliás, cinema? Isto para mim já virou palhaçada, deveria se chamar circo.

E eu que pensei que o pior filme de guerra da história fôsse Círculo de Fogo. Pobre de mim. E pobre de Círculo de Fogo. Comparar os dois é um ofensa à película européia. Mais ainda, chamar Pearl Harbor de filme de guerra soa como um piada de muito mal gosto. Deveriam inventar um novo gênero para coisas desse tipo, algo como plágios, esquecíveis, xenófobos, ou ainda colocá-las junto às fitas de Nintendo 64 na prateleira de games da videolocadora. Difícil de escolher. Ok, ok, vamos às classificações tradicionais:

a) Comédia? Só se forem gargalhadas de ódio ao final da sessão.
b) Drama? Piorou. Rasa, pífia e mal construída, a base dramática do filme não convence nem bebê de colo. Aliás, nem base tem. Drama, só se for o do espectador, durante as três horas de tortura.
c) Ação? Coitadinho de nós... É só o ataque, e olhe lá.
d) Suspense? Não. As unhas roidas são de raiva mesmo.
e) Ficção? Nem pensar. A história foi real, as más atuações são reais, o ianquecentrismo é real e o podre é real. Infelizmente, mas é.
f) Romance? Tsc, tsc. Até Jennifer Lopez e Matthew McConnaughey convencem mais.
g) Infantil? De jeito nenhum! Até Pokémon tem mais conteúdo.
h) Terror? É, quem sabe... Pensando bem, melhor não. Coitado do Jason... Resumindo: Pearl Harbor é inqualificável!

Inqualificável, medíocre e chato. A superprodução de milhões e milhões de dólares só consegue repetir os mesmos clichês que rondam as películas patrióticas norte-americanas: os heróis ianques, os bandidos (o resto do mundo), os diálogos exacerbados, etc, etc, etc. As cenas em que são mostrados os japoneses tramando o ataque à Pearl Harbor são ridículas, caricatas e desnecessárias. Em uma certa parte do filme, um tal capitão instrui sua trupe ao ataque-revanche à Toquio. Um deles acha a idéia impossível, e então pergunta ao mestre como é que eles irão conseguir. A resposta foi bem simples: "Porque nós somos americanos!". Pausa. Irei contar até dez...

Mas não pensem que é só isso, não. Se fosse apenas pura xenofobia Hollywoodiana, Pearl Harbor seria só mais um filme ruim. O pior de tudo é que este bagaço cinematográfico não consegue ser bom nem em suas propostas principais. Ou seja: o tal triângulo amoroso e a guerra em si. As cenas iniciais são horrorosas. Aliás, a primeira hora de filme já estava bem terrível. Tenta levar o espectador a um climinha mais leve, com muito humor (daqueles mais sem graça) e cenas típicas de qualquer sessão da tarde. As seqüências românticas são um desastre à parte, pois os atores parecem estranhos no ninho: não se encontram, não têm química, não convencem, não nada. Saudades de Jack e Rose...

E depois vem o ataque. Os cinco primeiros minutos até empolgam. Infelizmente, Pearl Harbor é composto por mais 177 deles. Quando acabou o massacre, logo veio à minha cabeça que o mesmo aconteceria com o filme. Pobre de mim, esqueci da revanche!

Ou seja, batendo tudo no liquidificador, Pearl Harbor é péssimo. Um ou outro ângulo de câmera de Michael Bay se salva, e os cinco primeiros minutos do ataque japonês são bons. E só. Estamos diante, mais uma vez, de uma típica produção que pega carona com Independence Day (o tal do I love you, America) e Titanic (há seqüências absurdamente semelhantes) e acaba naufragando sem a menor identidade. Os diálogos são pobres e batidos, não há roteiro para justificar as intermináveis três horas de duração, não há atores interessantes, a trilha é um saco... O humor, ridículo, as cenas de amor, deprimentes, as de batalha, bocejantes, as dos japoneses, raivosas, e a direção, típica. O que resta? Só uma esperança: que o cinema deixe de ser uma vitrine expositora de rostos egocêntricos para que, quem sabe um dia, possa ser apenas uma digna e plena expressão da mais pura arte celebrada. Ou, ao menos, palco de um filminho mais convincente.


Pearl Harbor (Pearl Harbor, EUA, 2001).
De
Michael Bay.
Elenco: Ben Affleck, Josh Hartnett, Kate Beckinsale, Cuba Gooding Jr., Jon Voight, Alec Baldwin, William Lee Scott, Greg Zola, Dan Aykroyd. 177 min.
Site Oficial

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Setembro 2001