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Olhos
Famintos
Terror
honesto
Por
Daniel Libarino
Difícil
evitar o olhar meio torto à qualquer filme
de terror que venha a estrear. Afinal, o gênero
parece demonstrar mais sinais de desgate que o
cinema de ação - já ultra
saturado - devido à avalanche de slasher
movies (que seguem a cartilha do assassino mascarado
aterrorizando adolescentes), e que foi despejada
sobre nós, pobres espectadores, nos últimos
anos. Nem todos foram, de fato, ruins, mas o sub-gênero
ressucitado por Wes Craven, no já clássico
Pânico, não apresentou
nada de novo a cada nova produção.
O roteirista e diretor Victor Salva já
havia despertado o interesse de duas produtoras
independentes com seu novo projeto, até
que resolveu mostrá-lo à Francis
Ford Coppola, que, para sua surpresa, gostou muito
e aceitou produzi-lo. Agora, Jeepers Creepers
já ganhara contornos hollywoodianos, sendo
uma nova empreitada dos estúdios MGM.
O filme ganhou intensa propaganda na época
de sua estréia nos Estados Unidos, levando-o,
assim, facilmente ao primeiro lugar de bilheteria
logo no final de semana inicial. Mas a suposta
alegria durou pouco: nas semanas que se seguiram,
Jeepers Creepers caiu vertiginosamente
nas listas e, até agora, não conseguiu
ultrapassar os 40 milhões de dólares
arrecadados (o que não é, de modo
algum, ruim, já que custou apenas 10 milhões).
Mas não é difícil explicar
tal fato; a verdade é que trata-se de um
terror verdadeiro, que não é sustentado
por formulinhas batidas e clichês para agradar
ao público médio - o que pode tê-lo
assustado um pouco.
É bem provável que as pessoas que
assistirem Jeepers Creepers (ou,
Olhos Famintos, no horroroso título
em português) aqui no Brasil também
adquiram certa repulsa. Afinal, desenvolvimentos
(certas vezes) atípicos e finais que fujam
do óbvio não são preferência
nacional (infelizmente), porém, constituem-se
em características mais que presentes na
produção de Salva. A verdade é
que o filme não procura, de fato, agradar
ao espectador que, ao assisti-lo, espera encontrar
uma enésima variação de Eu
Sei o que Vocês Fizeram no Verão
Passado. Como já havia citado,
Jeepers Creepers não é
terror de plástico.
Logo no começo, pensamos se tratar de uma
versão adolescente de Encurralado,
mas tais semelhanças marcam só os
primeiros momentos. Darry Jenner (Justin Long)
e Patricia Jenner (Gina Philips) são dois
irmãos fazendo uma viagem de carro da faculdade
de volta para casa, onde irão visitar seus
pais. Mas, após serem aterrorizados por
um veículo esquisito que forçava
ultrapassagem, os jovens começam a temer
que algo dê errado. Logo, em certa parte
da estrada, encontram o tal veículo estacionado
em uma velha igreja, presenciando, ainda, um homem
esquisito jogando corpos ensacados dentro de um
duto. A partir daí, passam a ser perseguidos
por alguém que quer algo mais que um simples
silêncio ao fato.
E está aí uma estória que,
à certa altura de seu desenvolvimento,
até parece um Stephen King adaptado para
adolescentes. Uma pena não tratar-se disto.
Jeepers Creepers, apesar de todos
os grandes méritos que o compõem,
perde, e muito, quando tenta imprimir certo ritmo
para não parecer disperso demais para com
seu público-alvo, acostumado a roteiros
esquemáticos. Apesar da trama surpreender
para os padrões de Hollywood, ainda sim
reserva momentos irritantes e repetitivos.
Um dos problemas enfrentados pela obra é
mostrar cedo demais a "criatura" que
persegue os irmãos, acabando com metade
do suspense que poderia provocar se fôsse
mantido o mistério até o fim. Outro
agravante: os efeitos-especiais que, a princípio,
deveriam ajudar na veracidade dos acontecimentos,
acabam dando um tom de ficção postiça
em certos momentos. Com estes graves defeitos
contidos no roteiro, Salva não consegue
prender o espectador como deveria, e acaba transformando
o que poderia vir a ser original em supérfluo.
Mas
Jeepers Creepers, além de
provocar bons sustos, contém méritos
que não o fazem decair em dignidade. Primeiro:
pouco é revelado sobre as identidades dos
dois irmãos; a única coisa que sabemos
é o que, basicamente, está estampado
na sinopse - mas nem por isto deixamos de sentir
na pele o que sentem ambos. Segundo: o filme começa
na estrada e termina nela, fazendo com que poucos
personagens venham a aparecer, facilitando a tarefa
do diretor em botar medo em meio ao desconhecido.
E terceiro (e mais relevante): a identidade do
"vilão" nunca é revelada
e seus atos não são alvos de justificativas
mirabolantes; portanto, não sabemos quem
realmente é, de onde veio e o que quer.
É apenas um ser assustador, e pronto.
E
é fácil prever que este conjunto
de qualidades será o motivo de descaso
de muita gente que for ver Jeepers Creepers,
pois, assim como A Bruxa de Blair 2,
não tem a menor pretensão em deixar
tudo explicadinho, para degustação
rápida. É um filme de terror que,
apesar de regular, acrescenta, e não se
contenta com o óbvio. A crítica
internacional se dividiu; houve um texto no qual
o jornalista havia escrito se tratar da melhor
produção do gênero desde A
Bruxa de Blair. Não chega ao extremo
- A Bruxa ainda está imbatível no
quesito medo. Ainda sim, Jeepers Creepers
vale o ingresso, pois, como raras as vezes, deixa
a gente pensativo ao sair da sala de cinema. E,
ao apagar das luzes do quarto, aquelas imagens
custam a deixar a mente.
Olhos Famintos (Jeepers Creepers,
EUA, 2001).
De Victor Salva.
Elenco: Justin Long, Gina Philips, Jonathan Breck,
Patricia Belcher, Eileen Brennan. 93 min.
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Oficial
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