|
Norah
Jones - Come Away With Me
A
menina que nasceu gigante
Por
Diogo Henriques

Se você admira as grandes vozes do jazz
americano e é uma pessoa sensata o bastante
para não desprezar a audição
de uma boa música pop, suas chances de
se tornar um apreciador da música de Norah
Jones são de 10 em 10. Norah não
é nenhuma nova Billie Holliday, tampouco
veio ao mundo para ocupar o lugar de Ella Fitzgerald,
como muitos críticos gostam de alardear
por aí. Norah é simplesmente (como
se fosse pouco) uma jovem cantora e pianista que,
aos 22 anos de idade, parece surgida em pleno
ápice de sua maturidade. E seu disco de
estréia, o excelente Come
Away With Me (em bom português,
"Venha Comigo"), já nasce gigante,
obra de respeito que garante desde já lugar
de destaque na lista dos melhores de 2002.
Filha do citarrista indiano Ravi Shankar - com
quem pouco convive e de quem não gosta
de falar -, Norah faz um tipo sofisticado de música
que prima pela fusão. É fácil
perceber suas influências, e ao mesmo tempo
impossível classificá-la. Cantora
de jazz? Soul woman? Country girl? Ou simplesmente
mais um rosto bonito da boa música pop?
Ou tudo isso ao mesmo tempo?
Com uma produção discreta e refinada
de Arif Mardin (Aretha Franklin, Dusty Springfield,
entre outros), Come Away With Me
foi originalmente concebido como um disco de standards
americanos. No entanto, ao longo das sessões
em estúdio, fascinada pelas composições
dos músicos de sua banda, especialmente
as do guitarrista Jesse Harris e as do baixista
(e namorado) Lee Alexander, Norah optou de última
hora por gravar material inédito. E de
fato, das 14 faixas do álbum, apenas 3
são regravações. Estas ficam
por conta de "Cold Cold Heart"
(Hank Williams) e "Turn Me On"
(John D. Loudermilk), além de "The
Nearness Of You" (Hoagy Carmichael/Ned
Washington).
O apaixonante domínio vocal de Norah, cuja
voz lembra levemente a de Erykah Badu, já
aparece de cara nas três primeiras faixas
do disco. Em "Don't Know Why",
a pérola pop que abre o CD, Norah passeia
pelos clichês das canções
de amor com uma propriedade assustadora. De tal
forma que, quando canta que seu coração
está encharcado em vinho, ao ouvinte não
resta senão acreditar. Na melancólica
"Seven Years", Norah extrai melodia
de cada sílaba que entoa, revestindo versos
aparentemente pueris de uma densidade sufocante,
em uma canção que, na voz de uma
cantora menos talentosa, passaria facilmente despercebida.
"Cold Cold Heart", a faixa seguinte,
ganha em seu piano sinuoso e no baixo de Alexander
uma versão instrumentalmente simples porém
cheia de nuances vocais que alegrariam o sempre
tristonho Hank Williams.
Ao lado de "Don't Know Why",
"Feelin' The Same Way" e "Shoot
The Moon" são talvez as canções
do disco com perfil mais pop, a primeira com uma
levada sutilmente folk que se encaixaria perfeitamente
em algum álbum da Joni Mitchell dos anos
70. Na faixa-título, uma composição
da própria Norah, o convite a quem ouve
é quase obsceno, e a voz da cantora se
transfigura, adquirindo uma languidez providencialmente
emprestada da canadense K.D. Lang. Ela canta com
suavidade: "Come away with me in the night/
And I'll write you a song/ Come away with me in
the night/ And we'll kiss".
Um
dos melhores momentos do CD está na versão
de Norah para "Turn Me On", de
John D. Loudermilk. Dessa vez sem languidez alguma
na voz, a americana soa ainda mais provocante
ao entoar versos como "The glass is waiting
for some fresh ice cubes/ and I'm just sitting
here waiting for you to come back home and turn
me on". Um irresistível blues,
à moda antiga, em interpretação
memorável, no melhor estilo Nina Simone.
E aí a diversidade musical em Come
Away With Me apenas começa. Em
"Lonestar", por exemplo, encontramos
um apelo deliciosamente country, mas não
aquele de fórmula pronta e consagrada que
povoa o imaginário e evoca a imagem de
homens de chapéu e cinto de couro. Muito
pelo contrário, Norah opta por um caminho
"moderno", que resgata a essência
do gênero sem se limitar à simples
imitação ou aos arranjos fáceis
de que certos produtores costumam lançar
mão. Ouvir a música é como
estar ouvindo Woody Guthrie e pensando ao mesmo
tempo que aquilo não parece nada com ele.
"I've
Got To See You Again"
expande o leque do disco, com seu clima oriental
rascante. "Painter Song", por
sua vez, deixa bem claro que Norah tem na estante
de casa algo da bossa de Tom Jobim. "One
Flight Down", a décima primeira
faixa do cd, é outro de seus momentos altos,
ao lado de "The Nearness Of You",
essa só ao piano. Completam o disco ainda
"The Long Day Is Over" e "Nightingale".
Com tantas boas referências, não
seria difícil desconfiar dessa cantora
tão jovem e promissora que faz lembrar
um monte de gente sem deixar de parecer, sempre,
única e exclusivamente ela mesma. Não
custa nada reafirmar que de colcha de retalhos
a música de Norah Jones não tem
nada. Isso porque, ainda que suas composições
e releituras tragam inúmeros traços
de suas predecessoras, não deixam de transparecer
uma marca de reverente originalidade. Ouvi-la
é ao mesmo tempo ouvir algo novo e rememorar
sons do passado.
Seu talento e musicalidade são tão
incontestáveis que tentar justificá-los
seria como querer explicar a lógica dos
axiomas.
Embora
em termos de letras Come Away With Me
não tenha nada de excepcional, não
há como negar que existe nele uma magia
hipnótica e estimulante. Aliás,
o disco merece ainda um último elogio:
trata-se de uma obra enxutíssima, que dispensa
preciosismos desnecessários. Cada música
tem em média os 3 minutos suficientes para
dar conta de seu recado. E, sendo assim, o convite
de Norah torna-se ainda mais irresistível.
|