Natalie Imbruglia - White Lilies Island

Natalie Imbruglia - White Lilies Island
O estranho retorno

Por Fernando Passos

Passados quatro anos do lançamento de seu primeiro álbum, a cantora Natalie Imbruglia volta à ativa com White Lillies Island. Mas, em seu segundo trabalho, a nova Natalie de cabelos compridos e aparência anoréxica parece não se preocupar em repetir o sucesso de Left Of The Middle. WLI é mais sério, mais soturno e extremamente emocional, características que provavelmente o tornarão menos apreciável ao público.

Com melodias mais simples e arranjos instrumentais, letras mais profundas - dessa vez Natalie co-escreve todas elas - e um tom mórbido e melancólico, as canções não soam mais como um alt-pop que toca nas rádios, mas como músicas para se ouvir no cantinho do seu quarto, em momento de reflexão. Natalie narra indiretamente, em cada uma delas, um tema diferente sobre o lado negro de nossas vidas. Destacam-se também os vocais do álbum, que melhoraram muito desde Left Of The Middle. Dessa vez há mais exploração da voz, mais afinação e um uso bem mais adaptado.

"Talk In Tongues" carrega uma mensagem secreta, talvez aos rock stars que comandam legiões de fãs com música oca e fria. Natalie, em voz amena, confessa sobre os corredores escuros sem fim por onde esteve. A faixa "Goodbye" traz a dor de uma depressão com um trágico fim: a morte, forçando a narrativa através de uma carta. Em contrapartida, "Sunlight", a faixa mais rock'n'roll do cd, é um alerta a levantar e se deixar curar de toda a dor que é causada pela vida, vivendo intensamente. Ela pergunta: "Did you ever feel sunlight on your face/ Did you ever truly lived?".

A frágil "Butterlies" parece narrar uma vida afogada em drogas e seus efeitos, até o último nível: a morte. "Satellite" soa meio fora do contexto: uma atmosfera tranqüila e voz suave, cantando uma letra amorosa açucarada. Terminando o álbum, vem "Come September", cujos vocais delicados dão um ar de paz e alívio a todas as facadas anteriores. A letra, porém, disfarça na verdade uma vida de amargura.

No encarte de WLI, montagens de cenas da vida de Natalie, como fotos de infância, adolescência, desenhos, calendários e anotações, adicionam a impressão intimista que se tem do álbum e suas belas canções. Fica claro que Natalie cresceu musicalmente durante esses quatro anos fora da mídia. WLI abrange temas mais complexos do que dores de cotovelo ou rixas sentimentais de pós-adolescência, e narra de forma simplista e artística assuntos mais sérios.

White Lillies Island é uma jornada ao lado feio e doloroso do ser humano. E com certeza enfrentará muitos narizes torcidos, justamente por ser um álbum mais carregado e pouco comercial, sucedendo um debut acessível a qualquer ouvido.

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Abril 2002