Mentiras

Mentiras
Relação sadomasoquista é abordada com realismo surpreendente

Por Daniel Libarino

Logo nos primeros minutos de Mentiras, percebe-se que foi feito sob medida para chocar o público e criar muita polêmica. Uma garota de 18 anos entra no quarto de um homem de 38 que mal conhece, pois só havia tido contato maior através de um sexo básico por telefone. Começa a despir-se, entrega-se ao prazer puro e simples, perdendo assim, sua virgindade. Após a cena, duas pessoas se retiraram da sala de cinema. Quarenta minutos depois, quando a tela mostrava uma explícita relação sadomasoquista, mais dois espectadores não aguentaram.

Reações que não me espantam nem um pouco. Afinal, Mentiras parece dotar de um espírito provocativo sem fim, testando o público a cada cena, a cada perversão, a cada chicotada, a cada paulada. Mostra de maneira crua um caso de amor atípico no cinema, ao menos em sua forma demonstrada. Não tem medo de chocar, não tem medo de ousar, de mostrar e, muito menos, de errar. E erra, como erra!

Primeiro porque, para um filme que teve a coragem de tocar em um assunto que ainda é tabu para muita gente, é quase incompreensível o não uso do sexo explícito em suas filmagens. Beira, mas não cai. Fuma, mas, em termos, não traga. Segundo porque o diretor Sun-Woo Jang incorporou um aspecto quase documental em algumas das cenas, um semi-Dogma 95, mostrando depoimentos dos dois atores principais sobre a obra que irão compor. Reparem nas expressões: "quase", "semi". E o que dizer de um mais-que-audível "corta", dito pelo diretor no final de uma cena de espancamento? Recurso interessante, mas sem sentido.

A trilha da produção é composta, basicamente, de muito tecno. Levando em conta a angústia de várias das cenas em que a música é colocada, soa quase ridículo. Por fim, a direção de Jang utiliza alguns recursos falíveis, como a câmera ora em velocidade rápida, ora lenta, ora embassada, ora desnorteada. Não que os elementos sejam ruins, mas são postos, em sua maioria, no lugar errado, na hora errada. E aí você me pergunta: por que diabos vale a pena assistir a um filme repleto de problemas? Simplesmente porque um fato os sobrepõe: sua veracidade.

Apesar de tudo que podia levar Mentiras ao completo desastre, o modo realístico de como é tratada a relação é que merece maior destaque. O caso vivido por Y (Tae Yeon Kim) e J (Sang Hyun Lee) está longe da ficção e, apesar do certo receio quanto ao modo explícito de levá-lo às telas, é mostrado com muita verdade, sinceridade e realismo. É interessante ver até que ponto chega um cego amor dito adolescente, carnal e imaturo. Não que o seja, mas poderia ser. As hipóteses estão lá, o assunto foi comentado e Mentiras, mais que tudo, é um filme digno. Seja de revoltas, prêmios ou repulsas. Mas nunca da banalidade insubstâncial.


Mentiras (Gojitmal, Coréia do Sul, 1999).
De
Sun-Woo Jang.
Elenco: Sang Hyun Lee, Tae Yeon Kim, Hye Jin Jeon, Hyun Joo Choi, Kwon Taek Han. 112 min.

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Setembro 2001