Memórias Póstumas

Memórias Póstumas
Puro prazer

Por Daniel Libarino

São poucos os filmes que nos fazem sair com um sorriso após o término. E ao pensar que este prazer veio de um obra que tinha tudo para virar uma bomba, ainda é mais revigorante. Convenhamos, quem seria louco o suficiente para querer fazer uma versão cinematográfica de uma obra clássica da literatura brasileira, e principalmente de Memórias Póstumas de Brás Cubas?
Resposta: André Klotzel (de Marvada Carne).

Resultado: a adaptação foi vencedora de cinco prêmios Kikito no Festival de Gramado, incluindo melhor filme, diretor e roteiro. Mereceu cada um deles.


É incrível como Memórias Póstumas (o filme) é tão seguro de si e nunca apresenta o medo de ousar, ou até mesmo, de usar e abusar da imaginação para compor, em tela, as ironias presentes na obra de Machado de Assis e que, respectivamente, dão o toque humorístico à película e ao livro. Logo nas cenas iniciais é mostrado um certo sonho de Brás, cena de inspiração pura e recíproca, pois atinge.

Para encarnar a versão "real" do personagem, foi escolhido Reginaldo Faria: aliás, melhor impossível. Apesar de cada leitor já ter criado sua própria imagem de Cubas, o ator o personifica de modo triunfal e, assim como no livro, conversa com o público e cria rápida empatia (apesar de suas peripécias serem dotadas de muita apatia). E lá está ele, Brás Cubas, morto, mas, ainda assim, de pé para nós, contando com certo esmero sua infância, para depois firmar-se na vida adulta (vivido por Petrônio Gontijo), relembrando suas (quase sempre) cômicas desventuras amorosas.

É impossível ficar impassível diante do requinte das imagens e da primorosa direção de Klotzel. Tudo em Memórias Póstumas está em seu devido lugar, sem exageros, desde o humor irônico, às vezes com toques de sarcasmo, até as seqüências mais filosóficas e dotadas de depressão mútua. Aliás é este mutualismo, esta identificação e contato mais direto do espectador com o personagem que faz desta adaptação uma senhora adaptação, fiel não só nos aspectos descritos há dezenas de anos, mas também ao um dia leitor, que apreciou todas as finas camadas irônicas e tudo o mais que Machado proporcionou por muitas gerações - e que, agora, André Klotzel acaba por homenageá-la.

É por isto que Memórias Póstumas é filme definitivo, grande filme, que se assiste com imenso prazer. E que de quebra ainda acaba por ajudar aqueles vestibulandos desesperados que, se não leram o livro, querem ilustrar e ter a mesma satisfação que tiveram no momento de simples leitura. E é por isto que merece o título de "definitivo", pois adapta para tela com extrema dignidade as imagens mais belas vindas da imaginação de dois mestres da arte, fazendo da junção de idéias um triunfo significativo para a cultura nacional. E é esta, sem dúvida, a magia da sétima arte: a convergência de todas elas. Memórias Póstumas é cinema puro.

 

Memórias Póstumas (Brasil, 2001).
De
André Klotzel.
Elenco: Reginaldo Faria, Petrônio Gontijo, Viétia Rocha, Sônia Braga. 102 min.
Site Oficial

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Setembro 2001