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Magnólia
- Trilha Sonora
A
melhor trilha dos anos 90
Por
Adriano Ferreira
Não
é exagero dizer que Magnólia,
o filme, não existiria sem sua trilha
sonora. Como o próprio diretor
Paul Thomas Anderson escreve
nas notas do CD, seu aclamado filme começou a
tomar forma graças às canções de sua amiga Aimee
Mann. Enquanto pensava no roteiro do sucessor
de Boogie Nights, PTA (como é conhecido)
ouviu as músicas que Aimee estava compondo para
seu próximo disco. Fascinado com as histórias
de melancolia e solidão que habitavam as músicas
da cantora, o diretor começou a construir a espiral
de emoções que futuramente se tornaria Magnólia,
seu melhor filme até hoje.
A trilha
sonora do filme, portanto, é um caso à
parte: ao contrário de 90% das trilhas sonoras
de hoje em dia, ela tem vida própria quando desacompanhada
de imagens - simplesmente porque ela já existia
antes do filme (aliás, só há uma única música
composta especialmente para o filme, "Save
Me"). Mas não é só por isso que o CD merece
destaque: a força das canções de Aimee Mann transforma
esse álbum num dos melhores discos dos últimos
anos.
Aimee canta sobre relacionamentos. Ok, nada de
original nisso. Mas o modo como ela articula expectativas
criadas, decepções, tristezas e esperanças é tão
humano, tão verdadeiro, que é impossível não se
identificar com seus versos. Como PTA sabiamente
escreve no CD, as músicas de Aimee fazem o ouvinte
se perguntar se a) já ouviu isso antes; b) já
disse isso antes, ou c) já pensou isso antes,
mas nunca escreveu.
Desde seu primeiro álbum, Whatever (1993),
Aimee trabalha em parceria com o produtor Jon
Brion. Aqui a dupla atinge a perfeição, criando
arranjos fabulosos para letras no mínimo destruidoras.
A unidade das nove faixas da cantora é tamanha
que até ao regravar músicas de outros artistas
o resultado soa como uma composição própria. Basta
ouvir os acordes iniciais de "One" (composta
por Harry Nilsson e já regravada pelo Filter)
para tirar a prova: com um arranjo ao mesmo tempo
minimalista e precioso, combinando poucas notas
de piano, guitarras e uma bateria precisa (tudo
tocado pelo produtor Brion), o resultado poderia
passar muito bem como mais uma fenomenal composição
da cantora. Ainda mais ou ouvi-la entoar versos
tão cortantes: "One is the loneliest number
that you'll ever do/ Two can be as bad as one,
it's the loneliest number since the number one".
Musicalmente, "Momentum" é sem dúvida a
faixa mais animada do disco, remetendo a um ensaio
de uma jazz band. Mas basta ouvir alguns versos
para ver que a alegria é apenas aparente: "I'm
condemning the future to death so it can match
the past". Em "Driving Sideways", o
que predomina é a ironia e um certo cinismo, enquanto
a música soa alegre, daquelas de cantar junto
e sorrindo. Aqui as guitarras são o destaque -
aliás, uma das maiores qualidades do disco é o
destaque dados aos instrumentos. Repare como as
guitarras, sem serem necessariamente pesadas,
soam pesadas e cortantes em canções como "Deathly"
e esta "Driving Sideways", com suas intervenções
precisas.
A
citada "Deathly" talvez seja o momento
mais triste do disco. Pode ser considerada a faixa
central do CD, já que o próprio PTA afirma ter
roubado frases dessa música para incluir no filme.
Também, não dá para ignorar uma canção cujo primeiro
verso é "Agora que eu já te conheci, você se
importaria se a gente nunca mais se encontrasse?".
Aimee consegue transformar toda a solidão e amargura
de uma pessoa com auto-estima quase inexistente
em música, versos e excelentes backing vocals.
"Quando um ato de bondade pode ser mortal",
ela diz, e a música soa ao mesmo tempo extremamente
frágil e bonita, com guitarras de fazer o ouvinte
ir às lágrimas - principalmente no magnífico final.
"You Do" carrega uma certa esperança, meio
capenga, mas ainda assim esperança. É um domingo
de manhã transformado em música: todo aquele sentimento
de calma, melancolia e preguiça pode ser palpado.
É o dia seguinte a uma noite frustrante. É delicada
e leve, mas ainda assim com algo triste. Aimee
canta sobre uma paixão cheia de expectativas frustradas,
sobre "o sexo que você faz em troca de algo
que você espera que seja amor". Mas ao final,
a insistência do verso "you do, you really
do", ainda mantém a esperança de que, um dia,
essas expectativas sejam realizadas.
Um número instrumental ("Nothing Is Good Enough")
separa a esperança da mais completa desesperança
possível: "Wise Up", que marca o momento
mais bonito do filme. Composta originalmente para
o filme Jerry Maguire (coincidentemente,
também com Tom Cruise), a música cai como uma
luva aqui. Contando basicamente com um piano e
uma bateria, Aimee não deixa pedra sobre pedra
ao cantar que "isso não irá parar até que você
se toque/ portanto, desista". Não foi à toa
que PTA escolheu essa música para o momento mais
catártico do filme.
"Save Me" encerra o CD com uma volta à
esperança em um amor: "Você parece perfeitamente
adequado/ para uma garota precisando de um torniquete".
Com um refrão singelo e magnífico, ao qual é impossível
resistir, parece que os personagens de Aimee finalmente
acharam um pouco de paz, depois de serem salvos.
Um acordeón reforça a beleza e simplicidade da
música.
Mas o momento mais magnífico do disco fica mesmo
com "Build That Wall", um pequeno conto
sobre alguém que, como diz o título, construiu
paredes à sua volta, tornando-se inatingível.
É incrível ver como Aimee transformou a melancolia
em quatro minutos da mais pura perfeição. Uma
flauta aqui, um oboé ali, backing vocals nas horas
certas, tudo funciona como um relógio para criar
um belíssimo pano musical para a tristeza da cantora.
"Se eu tiver a chance, também aprenderei a
construir muros". E, ao dizer isso, várias
camadas de vozes se sobrepõem, criando um efeito
no mínimo sublime. Parece muito para uma canção
só. Não para uma artista do calibre de Aimee Mann.
O diretor Paul Thomas Anderson
que o diga.
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