|
O
Senhor dos Anéis: As Duas Torres
Continuação
espetacular
Por
Henrique
Miura
Às
vezes é difícil (e incômodo)
comentar um filme, pois, por mais que argumentemos
sobre ele, é impossível transparecer
e deixar em palavras o quanto é magnífico.
Sinto isso bem claro agora que estou comentando
o esperadíssimo As Duas Torres,
segunda parte da trilogia do O Senhor
dos Anéis, dirigida por Peter
Jackson. Dessa vez, o diretor começa
seu filme já com ação,
dinâmica e batalhas eletrizantes. Enquanto
o A Sociedade
do Anel é um filme mais calmo
(tem toda uma introdução leve
e divertida, mostrando o pacifismo dos Hobbits
no meio da festa do 111º aniversário
de Bilbo) e com ação mais regulada
(ao que me lembro, temos apenas duas grandes
cenas de ação: uma na inesquecível
passagem pelas Minas de Mória, e a outra
já no final, quando existe um ataque
de Orcs, e a Sociedade é desfeita), o
As Duas Torres é pura
ação e adrenalina, embaladas em
um pacote visual deslumbrante, no qual podemos
conferir as imagens mais espetaculares do ano
(dizer isso de O Senhor dos Anéis já
é um clichê, mas tem de ser dito,
pois o que vemos na batalha do Abismo de Helm
e na destruição de Insengard pelos
Ents é simplesmente fenomenal, gigante,
épico reluzente).
Mas
isso já era esperado por quem já
leu a obra de J.R.R. Tolkien. Pois nas páginas,
A Sociedade do Anel também
é uma história mais contida, mais
narrada e detalhista do que propriamente de
tirar o folêgo. O As Duas Torres
é um livro que você lê um
capítulo sem interrupção,
pois é empolgante, contagiante e muito
envolvente, mesmo com a narrativa das peças
da sociedade sendo feitas separadamente (começa
com Pippin e Merry com os Orcs, depois vemos
Aragorn, Legolas e Gimli os buscando e encontrando
os cavalerios de Rohan, e então, finalmente
vemos Frodo e Sam encontrando Gollum e partindo
para Mordor). No filme, Peter Jackson preferiu
juntar tudo sem perder o ritmo (ou sem deixá-lo
espatifado), e o resultado foi extramamente
satisfatório, apesar de em um certo momento
(mais especificamente quando em plena batalha
de Helm, temos uma parada para acompanharmos
Frodo, Sam e Gollum como reféns de Faramir,
irmão do falecido Boromir) sentir a falta
da ligação entre as história.
O mesmo ocorre em todos os momentos em que Merry
e Pippin estão com Barbárvore,
aquela árvore falante, que nas palavras
corretas, é um ent (voz de John Rhys-Davies,
o mesmo interprete do Gimli).
Que
isso não seja interpretado como falhas
grosseiras. Na verdade, são pequenos
detalhes que poderiam ter sido realizados de
uma forma um pouco mais próxima, junta.
As Duas Torres é feito
por momentos memoráveis: no começo,
já temos Gandalf, o cinzento, travando
uma batalha em queda livre com o demoniáco
Balrog, e logo surge como Gandalf, o branco.
Em seguida, temos Frodo e Sam sendo atacados
por Gollum (que, no primeiro filme, tem rápidas
apariações apenas observando a
sociedade do anel em sua trajetória),
onde acabam dominando o Hobbit consumido pelo
Um Anel, e fazendo dele o guia para Mordor,
onde devem descarregar o anel nas montanhas
da perdição (que, para quem não
sabe, é a Terra do inimigo). Na próxima
cena, quem vemos são Merry e Pippin nas
mãos de famintos orcs. Por fim, temos
Legolas, Aragorn e Gimli e uma maratona atrás
dos orcs para salvarem os dois Hobbits indefesos.
As histórias se desenvolvem da forma
que acompanhamos no livro de Tolkien, porém,
muitas (muitas mesmo, bem mais que no A
Sociedade do Anel) modificações
foram feitas para que seja acessível
para todos. Alguns detalhes acabaram ficando
bem leves na trama, apenas para os fãs
que leram o livro se deliciarem (como a disputa
para ver quem mata mais orc, e a amizade que
elfo e anão constroem durante o período
que vão atrás dos Hobbits).
As atuações continuam as mesmas
do primeiro filme: Elijah Wood, muito bem em
cena, deixando claro o quanto pesa o anel para
o mero Hobbit; Ian McKellen (que conseguiu uma
indicação ao Oscar de ator coadjuvante
pela Sociedade do Anel, mas não
deve conseguir o mesmo pela As Duas Torres,
já que sua participação
é bem reduzida) continua conduzindo muito
bem o sábio Gandalf; se tem algum do
elenco que subiu o rendimento, foi Viggo Mortensen,
que vira, praticamente, a atração
principal do filme, no qual tem continuidade
seu romance com Arwen (Liv Tyler), mas apenas
em Flashback, e conquista o coração
de Eowyn (Miranda Otto), personagem nova, sobrinha
do Rei de Rohan, Théoden (Bernard Hill).
O trio de Hobbit Sean Astin, Billy Boyd e Dominic
Monaghan estão novamente impecáveis
e, dessa vez, o Pippin não surge como
alívio cômico para a trama. Talvez
pelas condições em que o personagem
se encontra, Astin (intérprete do sempre
fiel Sam), que teve a atuação
que mais que cativou no primeiro, continua carregando
em si as cenas mais emocionante - no final,
garante mais uma vez uma emoção
redrobada por causa de seu talento. Orlando
Bloom, Rhys- Davies, Christopher Lee continuam
com as atuações seguras, e novas
participações como Brad Dourif
(como o Língua de cobra), Karl Urban
e David Wenham são peças que seguram
bem seus personagens. Mas quem merece a principal
atenção é Andy Serkis.
Mas que esse aí interpreta? Ele é
o Gollum, ou Sméagol (como preferir).
Ué, mas esse não é aquele
bicho magrelo criado por computador? Sim, é
ele. Porém, quem deu os movimentos (e
a voz) ao personagem foi Serkis, que contracenou
com os outros atores, teve que tomar as posições
corretas para a fotografia, sendo substituito
somente depois pelo boneco digital, que é
extremamente convincente e real. Se tiveram
pessoas que se surpreenderam com o Yoda digital
em Star Wars - O Ataque dos Clones,
ou com o Dobby, o elfo doméstico de Harry
Potter e a Câmara Secreta, certamente
ficará de queixo caído com tamanha
expressão e carísma que tem o
esquizofrênico Gollum. Além dos
excelentes efeitos especiais e do belo desempenho
de Serkis, Gollum tem sua personalidade desenvolvida
pelo roteiro com total qualidade; ficamos no
meio termo de Frodo e Sam, temos dó do
ser, mas sabemos perfeitamente de seu perigo,
de até onde podemos confiar nele. Sua
expressão facial é estupenda,
inovadora, soberba - seu choro é real,
os detalhes de seu físico o torna verídico,
sua cara assustadora muitas vezes fica dúbia
com a sua aparencia inofensiva, inocente. E
sabemos que, no fundo, ele não é
um ser cruel, e apenas um Hobbit que foi dominado
pelo poder do Um Anel, e se tornou um dependente
de seu precioso, e desde então, viveu
na desgraça, na penúria, no lixo
abominável.
As
Duas Torres é um filme também
cheio de ensinamentos e profundidade. Temas
como esperança, amizade, companheirismo,
responsabilidade e tantos outros são
tratados a fundo com suavidade na trama (assim
como no livro). Poucas vezes Jackson deixa que
tudo seja explícito e súbito,
talvez a mais clara lição ética
seja a da esperança, sobre a qual o filme
parece dizer que, por mais difícil que
esteja a situação do mundo, com
guerras por todo lado (o filme tem um lado soturno
muito bem apurado), a esperança jamais
deve morrer. Mesmo em 300 contra milhões
e milhões, os defensores de Helm jamais
deixam de acreditar no bem, e que podem lutar
pelo correto, por aquilo que acham melhor. Nisso
entra na história também a honra
e a consciência, a recompensa e a crença.
Frodo, por carregar o pesadíssimo fardo
do anel, sente a responsabilidade e em diversos
momentos fraqueja, é refém do
maléfico anel (que chegou em suas inocentes
mãos por causa de seu tio, Bilbo). Por
isso, até tem desavenças com seu
fiel escudeiro, Sam. Quem também sente
que chegou o momento de ser responsável
é Pippin (que no primeiro foi um toque
cômico que funcionou perfeitamente), que,
junto com seu companheiro Merry, demonstra para
o Ent Barbávore que Saruman está
destruindo a Terra Média.
Quem era engraçado no primeiro e continua
nesta continuação é Gimli,
o anão. Em alguns momentos, seu humor
não funciona pela escatologia (como a
mostra de sua falta de higiene); em outros,
tem o timing perfeito e referente à obra
de Tolkien, como quando pede para Aragorn lançá-lo
(contradizendo-se do primeiro), mas não
contar o ocorrido para os elfos, os eternos
rivais do anões. E em outro momento,
ele tira um sarro com a teoria do nascimento
dos anões (na qual dizem que eles saem
do buraco), só irá entender completamente
essa tirada quem leu, pelo menos, as primeiras
40 páginas do Silmarillion, do
próprio Tolkien. Já se tratando
de ação, Legolas e seu arco continuam
garantindo momentos peculiares de uma aventura
épica de ação. Se no primeiro,
as cenas nas quais ele atira uma flecha e acerta
dois orcs (a que atira da ponte e acerta na
cara de um orc e no final, quando perfura um
orc com uma e logo a arma para acertar em outro)
garantiram fãs para o elfo, nesse segundo
ele patina em uma prancha na escadária
atirando flechas para todos lados, para delírio
de todos. Falando em grande momentos de ação,
se você gostou muito da ação
ocorrida em Mória no primeiro, não
perca por esperar a batalha do Abismo de Helm,
que é uma das coisas mais impressionante
que já vi se tratando de cinema.
Há
um ano atrás, quando A Sociedade do Anel
estreou e conquistou tantos adimiradores como
detratores (que insistem em reclamar que o filme
não tem final), mal dava para segurar
a ansiedade para o ano passar e assistir a continuação.
Agora que assistimos e acompanhamos a continuação
da história (se reclamaram que o primeiro
não tem fim, imagine o que os detratores
do O Senhor dos Anéis irão
dizer de o filme não ter começo
e muito menos final - algo bem próximo
do que foi O Império Contra-Ataca)
e ainda não obtivemos o final, não
vemos a hora de ver a continuação
dessa história épica e espetacular.
Se as espectativas que rendavam essa continuação
eram o ent Barbávore, o Hobbit-deformado
Gollum, e a seqüência da Guerra do
Abismo de Helm, agora estamos ansiosos para
ver o que Peter Jackson nos guarda para a apavorante
Laracna (que está no fim do segundo livro,
mas foi deixada para o começo do terceiro
filme, como bem sugere o final desse segundo),
e como irá encerrar essa grandiosa e
espetacular trilogia. Só digo uma coisa:
ao terminar As Duas Torres, ficamos
com muita, mas muita água na boca. E
mais um aviso, aproveite ao máximo a
sessão dessa segunda parte de O
Senhor dos Anéis, pois é
uma experiência única. Porém,
deve-se ter cuidado, pois tudo passa em um piscar
de olhos, você se envolve tanto que nem
vê o tempo passar; mesmo o filme tendo
suas três horas de duração.
E que venha O Retorno do Rei.
O Senhor dos Anéis - A Sociedade
do Anel (The Lord of the Rings: The
Fellowship of the Ring, EUA, 2001).
De Peter Jackson.
Elenco: Elijah Wood, Ian Mckellen, Viggo Mortensen,
Sean Astin, Orlando Bloom, John Rhys-Davies,
Billy Boyd, Dominic Monagham, Sean Bean, Liv
Tyler, Cate Blanchett, Hugo Weaving, Ian Holm,
Christopher Lee. 178 min.
Site
Oficial
|