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Liz
Phair - Exile in Guyville
Por
Adriano Ferreira

Quando
Liz Phair surgiu com Exile
in Guyville, em 1993, foi incensada
pela crítica por suas letras diretas e
sem rodeios, transbordando inteligência.
Mais do que isso: finalmente aparecia uma cantora
que falava de sexo do ponto de vista feminino,
sem assumir a pose dominadora, assumindo
sim que gostava de fazer sexo oral no namorado,
mas também adorando quando era ela que
recebia as carícias.
O auê em torno do disco (e da cantora) é
merecidíssimo, mas é muito limitado.
Exile in Guyville é muito
mais que uma coleção de poemas sexuais
de uma garota. Esse é um disco perfeito,
onde letras brilhantes encontram melodias perfeitas,
sensacionais. O lado musical de Liz Phair, poucas
vezes mencionado pela crítica, é
tão fenomenal quanto sua capacidade de
escrever letras incisivas.
Composto originalmente como uma resposta faixa-a-faixa
ao clássico Exile on Main Street,
dos Rolling Stones, o disco de estréia
de Liz Phair acabou transcendendo o conceito e
tomou vida própria. Construindo uma espécie
de diário musical, a cantora aborda não
só o sexo, mas relacionamentos em geral,
e nunca assumindo um só papel. Afinal de
contas, Exile in Guyville não
seria tão bacana se não tivesse
sido feito por uma mulher cheia de faces, e fases.
O som é alternativo, lo-fi, sem muitas
firulas, mas as melodias são altamente
contagiantes. Com pouquíssimos recursos
guitarra, violão e bateria nada
virtuosísticos na maioria das músicas
-, a cantora compôs uma seleção
impecável de ritmos. Desde a faixa de abertura,
a deliciosa 61,
até a última faixa, a introspectiva
Strange Loop, o que se ouve
é uma seleção perfeita, com
várias canções memoráveis.
A música mais famosa do disco acabou mesmo
sendo Fuck and Run, uma maravilha
pop de três minutos onde a cantora diz,
no refrão: Eu vou passar a vida
inteira sozinha/ É fuck and run
desde que eu tinha doze anos. A expressão
que dá título à música
é tão auto-explicativa que dá
até para adaptá-la ao vocabulário
do dia-a-dia (que foi o que eu fiz). Outro momento
comentado do disco é Flower,
sem dúvida a letra mais pesada de todo
o álbum. O ideal seria reproduzi-la por
inteiro, mas como não dá, aí
vai um singelo trecho: You act like youre
fourteen years old/ Everything you say is so/
Obnoxious, funny, true and mean/ I want to be
your blowjob queen. Glory
é o inverso: Hes got a really
big tongue, diz o primeiro verso. E
isso numa baladinha de um minuto e meio!
É impressionante a capacidade da cantora
em construir melodias partindo das bases mais
singelas. Canary é quase
um exercício de piano, com teclas repetidas
dando um ar melancólico à música.
Girls! Girls! Girls! é
só Liz Phair e uma guitarra, com um ritmo
nervoso e que teima em não sair da cabeça.
A melancolia também invade Shatter,
a única música do álbum que
ultrapassa os cinco minutos.
O
mais justo seria que eu comentasse todas as faixas
do disco; mas isso seria entusiasmo demais, ninguém
ia ter paciência para ler. Mas vale a pena
destacar alguns momentos extremamente contagiantes
do álbum. Mesmerizing
faz jus ao título, com seu ritmo marcado
por palmas e a guitarra mais alegre de todo o
álbum. Divorce Song
pode soar pop e alto-astral, mas tem uma letra
cínica até a medula tanto
que foi incluída numa lista da CDNow
das 10 melhores músicas de fim de
relacionamento. E também há
Strange Loop, que encerra o
disco, tentando pôr ordem na bagunça
emocional: Baby, Im tired of fighting.
A mistureba de sons ao final da música
explicita que nada é tão fácil
assim.
Quase
dez anos depois, Exile
In Guyville continua fascinando e
seduzindo quem o ouve - prova disso é que
foi incluído em todas as listas americanas
de melhores álbuns da década. Mas
também, estamos diante de um dos melhores
discos não só da década,
mas de todos os tempos.
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