Entre Quatro Paredes

Entre Quatro Paredes
Um drama contido e atuações memoráveis

Por Diogo Henriques

Entre Quatro Paredes (In The Bedroom), primeiro filme do diretor Todd Field, ficou em cartaz durante um bom tempo nos Estados Unidos sem que ninguém prestasse muita atenção. E a situação só veio a mudar por conta das indicações do filme ao Globo de Ouro, e a vitória de Sissy Spacek na categoria de melhor atriz. Agora, na expectativa das entregas do Oscar 2002, o filme finalmente chega as telas brasileiras. E que filme.

Todd Field, estreante na direção, é mais conhecido do público por seu papel em De Olhos Bem Fechados, último trabalho de Stanley Kubrick no qual Todd interpretou Nick Nightingale, o pianista amigo do personagem de Tom Cruise. A experiência com Kubrick parece não ter sido em vão: Field mostrou-se ele próprio um excelente diretor de atores. Em Entre Quatro Paredes, Sissy Spacek e Tom Wilkinson apresentam um desempenho extraordinário, irretocável. Suas indicações ao Oscar de melhor ator e atriz são mais que merecidas. Marisa Tomei, indicada na categoria de atriz coadjuvante, não deixa os colegas pra trás e ressurge do limbo com uma atuação impressionante.

Mas vamos à história do filme: Ruth Fowler (Spacek) e seu marido Matt (Wilkinson) formam com o filho Frank (Nick Stahl) uma típica família do interior dos Estados Unidos. Tudo vai bem até que Nick se envolve com Natalie (Tomei), uma mulher mais velha e mãe de dois filhos, assediada por um ex-marido inconformado e violento. É nesse ponto que acontece a tragédia que vai mudar para sempre a vida dos Fowler e abalar um casamento de anos. E é também aí que começa o show particular dos protagonistas da fita e suas atuações arrasadoras.

O roteiro de Entre Quatro Paredes, também indicado ao Oscar, colabora bastante para essas boas atuações. Os diálogos nunca soam falsos ou gratuitamente dramáticos. Pelo contrário, eles mostram situações plausíveis e condizentes com as características psicológicas dos personagens. Assim, a mãe dominadora interpretada por Spacek aparece em sua face de extrema amargura, enquanto o pai complacente vivido por Wilkinson adota uma postura contida mas ao mesmo tempo explosiva quando é necessário. Falar mais sobre isso seria chover no molhado.

Outra coisa que chama atenção no filme é sua fórmula completamente anti-Hollywoodiana, ainda que para uns o final seja perfeitamente previsível (mas não muito convencional, é bom dizer). A estética do silêncio que Todd Field adotou é também um ponto positivo para o filme, pois só faz reforçar a angústia dos personagens e de quem assiste ao desenrolar de suas agruras. A crueza de algumas seqüências é aterradora.

Transformar tudo isso em um melodrama bobo não seria difícil para um diretor mal-intencionado. Mas em Entre Quatro Paredes até mesmo os clichês adquirem profundidade. E é por essas e outras que ele merece sua quinta indicação ao maior prêmio do cinema mundial, na categoria melhor filme. Estamos falando de uma pequena obra de arte: vigorosa, emocionante, surpreendente.


Entre Quatro Paredes (In The Bedroom, EUA, 2001).
De
Todd Field.
Elenco:
Sissy Spacek, Tom Wilkinson, Marisa Tomei. 130 min.
Site Oficial

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Março 2002