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Hedwig
- Rock, Amor e Traição
À
nós, a liberdade
Por
Daniel Libarino
Filmes
musicais estão saindo do limbo e se reinventando.
Lars Von Trier se utiliza de algumas "normas"
do Dogma 95 e faz o digno Dançando
no Escuro. Baz Luhrmann foge do tradicionalismo
e dá um show de modernidade esquisofrênica
no maravilhoso Moulin
Rouge - Amor em Vermelho. Agora, utilizando
estética parecida com a de Velvet
Goldmine, John Cameron Mitchell resolve
levar seu Hedwig and the Angry Inch
dos palcos direto para as telas.
Não foi tarefa fácil. Mitchell,
que dirigiu, escreveu e atuou neste, teve um visível
cuidado com a estética, imprimindo hipnóticos
planos de transe de seu personagem. Fez um belo
trabalho. E apesar de se originar de uma peça,
Hedwig, o filme, está longe
do teatro. A transposição foi perfeita,
conseguindo distância das caricaturas, exageros
e unilateralismos. Encarando Hansel de corpo e
alma, o ator tem uma performance excepcional.
Vive um jovem homossexual na Comunista Alemanha
Oriental. Com o desejo de fugir de tal realidade,
resolve seguir o conselho da mãe: casar-se
com um soldado americano, seu atual namorado.
Para isto, teria que se submeter à uma
operação para mudança de
sexo. Resulta em frustração. Hansel
(ou Hedwig, como é mais conhecido) fica
com uma seqüela do plano mal-sucedido: um
pequeno pedaço do que sobrou do pênis
(a tal "polegada irada" do título
original). Ainda sim, consegue chegar aos Estados
Unidos, com o sonho de formar uma banda de rock.
Eis que, chegando, logo é abandonado pelo
soldado em um trailer no Kansas. Algum tempo depois,
conhece o jovem Tommy Gnosis (Michael Pitt, mais
conhecido pelo seriado Dawson`s Creek),
que enfrenta problemas com a família. Como
desgraça pouca é bobagem, o garoto
rouba todas as letras de música escritas
por Hedwig. Por ironia do destino, Tommy torna-se
um astro de rock, sucesso absoluto nas paradas
de sucesso, fato que provoca a ira de Hedwig.
Com uma banda montada, perambulando bares sem
público e sendo censurado por muitos lugares
onde tocara, Hedwig encontra em suas letras o
único refúgio para desabafar todo
seu descontentamento com a vida. A câmera
de Mitchell nos brinda com flashes de sua infância
e nos conta sua jornada até então
com dolorosa lembrança e sofrimento. Paralelamente,
sua fúria enche nossos ouvidos com melodias
radicais e depressivas, apresentadas em suas mal-sucedidas
turnês.
Hedwig
- Rock, Amor e Traição
vem há muito fazendo sucesso em inúmeros
festivais independentes por onde passara. A atmosfera
hipnótica e radical concedida pelo diretor
nos é, à primeira vista, um tanto
indiferente, apenas curiosa. Mas dando tempo ao
tempo, percebemos o quão rica é
a produção. Hedwig reprime-se em
suas plumas, perucas e trajes femininos com medo
de que liberdade de sua alma possa vir a ser mais
dolorosa que a atual realidade, recheada de mais
preconceito. Ao final, quando o lirismo predomina,
o personagem percebe que o mais importante é
nós nos aceitarmos do jeito que somos.
A coragem é a redenção.
Hedwig
- Rock, Amor e Traição
é um grito raivoso contra a intolerância,
vai fundo em suas propostas, contagia com a trilha-sonora
e encanta com a bela mensagem. Toda badalação
precedida não foi em vão: o filme
é mesmo ótimo.
Hedwig
- Rock, Amor e Traição
(Hedwig and the Angry Inch, EUA, 2001).
De John Cameron Mitchell.
Elenco: John Cameron Mitchell, Miriam Shor, Stephen
Trask. 91 min.
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Oficial
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