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Onde
Andará Dulce Veiga? (Caio Fernando Abreu)
Onde
andarão histórias como essa?
Por
Giselle Fleury
"Quem
ainda não conhece as histórias de Caio Fernando
Abreu terminará esta leitura com um travo amargo
na boca: sentirá o quanto perdeu por não ter lido
antes os escritos deste nosso companheiro de viagem,
tempo, espaço, calendário e vida, aquilo que chamam
por aí de geração." (Eric Nepomuceno, na contra-capa
da edição de 1997 de "Onde andará Dulce
Veiga?", editora Companhia das Letras).
Primeiro
você começa achando pretensioso, não se conta
uma história em sete capítulos, não se encontra
alguém em uma semana, não se faz mais literatura
como antigamente. Então você percebe que a pretensão,
na verdade, chama-se genialidade, que uma semana
é tempo mais do que suficiente para encontrar
a si
mesmo e que a literatura, realmente, não é mais
como antigamente.
Caio Fernando Abreu, um gaúcho que, infelizmente,
morreu em 1996 com 48 anos, juntou em um só romance
o meu, o teu e o 'eu' de todo mundo, uma garota
linda, um repórter falido, um amor perdido, uma
voz perdida, suspense, rock 'n' roll e os sete
dias da semana para criar a melhor trama que li
nos últimos dois anos. Onde andará Dulce
Veiga? é o melhor remédio para a dor,
para a angústia e para a terrível sensação de
perda.
Você começa achando que é só mais um livro e termina
achando que é o melhor de todos no gênero. Aliás,
o próprio Caio deu uma definição, no mínimo, interessante
para o gênero: "um romance B". Uma comparação
com filmes noir, em preto, branco e cinza, daqueles
que se passam em subúrbios sombrios, têm um policial
à paisana e uma prostituta fugindo de um bêbado.
E toda esta comparação garante com fidelidade
as imagens criadas durante a trama, uma vez que
a ambientação segue toda a linha das novelas policiais
da década de 70: uma redação de jornal com pouquíssimo
prestígio, um escuro estúdio de gravação, o subúrbio
paulista.
No entanto, o que fascina mesmo é a história.
Porque pouco importarão as imagens criadas, desde
a borboleta entre os seios de Márcia Felácio até
a cena de amor que tem Pedro como coadjuvante,
quando você chegar ao dia de domingo. Não foi
à toa que Morrissey descreveu domingos como silenciosos
e cinzas. Onde andará Dulce Veiga?
termina em um domingo cinza no meio do nada, acabando
com a busca da vida inteira deste repórter falido,
resumida em apenas sete dias.
O
que você vai encontrar neste romance é Dulce Veiga,
uma famosa cantora dos anos 50 que sumiu sem deixar
rastro nenhum de sua existência para todos que
a conheciam, nem mesmo sua filha, Márcia Felácio.
Só que Márcia resolve ser cantora também e acaba
resgatando a mãe na mente de um repórter em seu
primeiro dia de trabalho após um ano desempregado,
ao gravar o maior sucesso de Dulce, "Nada Além",
numa versão bem rock 'n' roll. As lembranças evocadas
a incrível busca pelo nada, uma busca a si mesmo,
uma busca sem direção a nós mesmos. E daí pra
frente são mais seis angustiantes, intrigantes
e intensos dias à procura deste nada, de alguém
que, na verdade, nunca esteve ali.
Onde andará Dulce Veiga? é a maior
prova de que o nada existe, de que podemos ser
felizes, de que todo mundo pode um dia se achar
e de que a boa e genial literatura brasileira
só não é lida porque não é conhecida. E se alguma
destas frases acima te tocou de alguma forma,
corre e leia este livro. Você terá sete dias para
mudar sua vida.
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