Duelo de Titãs

Duelo de Titãs
Racismo requentado

Por Daniel Libarino

Existe um velho ditado onde diz que é melhor não mexer em time que está ganhando. Ok, transpondo para a linguagem cinematográfica: se um clichê possivelmente fará sucesso, então repita-o. Honestamente, não tenho nada contra clichês, desde que trabalhados corretamente. Acontece que já está virando palhaçada, um circo cujo dono chama-se Jerry Bruckheimer. Será que existe, na face da Terra, produtor mais picareta? Lembremos os últimos trabalhos do mestre do dinheiro fácil: Show Bar, 60 Segundos, Pearl Harbor e este Duelo de Titãs. Hmmm, nada bom.

Mesmo por se tratar de um produto Disney, Remember the Titans sofre pela direção desnorteada e pelo roteiro indeciso. Conta a história real de um técnico negro de futebol americano (Denzel Washington, apagado) que assume um time, em uma preconceituosa cidadezinha no ano de 1971, no lugar de outro técnico, branco (Will Patton). O motivo foi o de tentar acabar com o protesto da comunidade diante do racismo local. Assim, unem-se duas equipes de raças distintas para tentarem vencer o campeonato estadual - e seus próprios preconceitos diante dos companheiros.

Na primeira parte, até os trinta e cinco minutos de filme, Duelo de Titãs é uma delícia. Mostra o treinamento do time em tom leve e despretensioso, resultando em boas risadas e tiradas afiadíssimas, algumas até ousadas - a cena em que mostra um certo atrevimento sexual do novo membro da equipe diante de outro é surpreendente e faz cair o queixo, levando em conta as origens da película. Uma agradável surpresa, que poderia resultar em um retrato suave e um tanto cru do racismo nos Estados Unidos, sem pretensão ou concessão.

Mas Boaz Yakin põe tudo a perder. O que se vê, de resto, é mais um conjunto de cenas para lá de batidas, regadas a diálogos previsíveis e música melosa. O roteiro tenta costurar um emaranhado de situações no menor tempo possível, em vez de situar-se em um só plano ou idéia, tornando-se corriqueiro e chatinho. Diante disto, o diretor ainda tropeça nas mensagens edificantes, nos jogos filmados sem a menor graça, no retrato raso sobre o racismo e nos personagens pouco explorados - e quando o faz, cai no tradicionalismo.

O clichê cinematográfico pode sim sofrer uma bela transformação de originalidade. Vejam o caso de Encontrando Forrester, com Sean Connery, onde lamenta-se o roteiro quadradão, mas fica impossível não perceber o toque independente e pessoal de Gus Van Sant. Aqui em Duelo de Titãs, tudo não passa de um pretexto para levar o espectador à lágrima fácil. Por vezes, até consegue bons momentos, mas ainda sim peca pelo convencionalismo e pela falta de tato de Boaz Yakin. Mas o filme custou 30 milhões, e faturou mais de 115 só em terras norte-americanas. Jerry Bruckheimer agradece.


Duelo de Titãs (Remember the Titans, EUA, 2000).
De
Boaz Yakin.
Elenco: Denzel Washington, Will Patton. 113 min.

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Setembro 2001