Tori Amos - To Venus and Back


Tori Amos - To Venus and Back

Eletrônico o sufiente para ser adorável

Por Eddie Schäfer

Por ser uma excelente letrista, mesmo que Tori Amos cantasse música sertaneja, funk ou qualquer coisa do gênero, ainda seria uma excelente artista, pois sua criatividade e talento permitem que ela explore todos os gêneros musicais sem que sofra rejeição de seus fãs. Até o remix de sua canção "Professional Widow" (a versão original pode ser escutada no álbum Boys for Pele) eu acho adorável e contagiante, e olha que eu tenho pavor de música dance.

Acho que todos os álbuns da cantora contam uma história. Isso pode ser percebido desde seu primeiro álbum de êxito, Little Earthquakes (92). Com o seu terceiro disco, Boys For Pele (96), a crítica caiu em cima do trabalho rejeitando-o de certa forma, justamente por ele trazer sonoridades que já haviam sido feitas nos álbuns anteriores. Porém, em 1998 Tori se juntou a uma banda e gravou um de seus melhores discos: From The Choirgirl Hotel (98) - até agora o único disco da cantora lançado no Brasil - com um selo nacional.

Aproveitando todos esses novos elementos, em 1999 lançou o álbum duplo To Venus and Back, o disco mais eletrônico de Tori Amos, até agora, sendo que eu nem consigo adequá-lo em um estilo.
Começamos com a primeira música do disco: "Bliss", definitivamente a melhor escolha para se divulgar o trabalho, justamente para que nenhum fã venha levar um choque com o novo álbum e, sim, adaptar-se ao novo estilo. Traz um piano um pouco escondido e uniforme. A partir do momento em que vão surgindo elementos eletrônicos, a música vai ganhando vida.

"Juárez" traz vários elementos eletrônicos e uma batida fiel na qual a cantora conta um história de um grupo de mulheres que se perderam no deserto do México. "Concertina" já é um estilo que lembra um pouco dos álbuns anteriores. Um piano na companhia de sua banda numa balada simples, porém de deixar qualquer um muito pensativo. Mas é a partir de "Glory of the 80´s" que o álbum começa a se confundir. Surgem mixagens eletrônicas e efeitos com a voz da cantora. Durante a letra faz-se alguns comentários sobre os anos 80, ainda mais se você é da época e cantou músicas como "Bette Davis´Eyes". Observação é que ela comenta essa época de forma irônica e engraçada.

"Lust" novamente traz um piano como base. Chega até a lembrar mais uma vez os discos anteriores se não fosse uma batida agoniante que acomponha a música, mas o clima todo se concentra no refrão.
"Suede", uma das minhas favoritas do disco, soa provocante e sensual. Se você prestar atenção até parece um alarme tocando. Isso tudo acompanhado de um excelente orgão tocado pela própria Tori. Mas a melhor parte da canção fica para quando ela diz: "call me evil call me ; tide is on your side anything that you want; anybody knows you can conjure anything by the dark side of the moon". Para mim esse é o melhor verso e já vale a música toda.

"Josephine", uma das músicas mais bonitas do disco, segundo a cantora, é uma homenagem a mulher de Napoleão Bonaparte. Os versos finais "even still you"re calling me; not tonight, not tonight not tonight Josephine" deixam qualquer um com um nó na garganta. Definitivamente uma das músicas mais sentimentais do disco.

"Riot Poof" é a música que menos me chama atenção. Apesar de ser uma homenagem da cantora para um membro de sua turnê que havia assumido sua homossexualidade, a voz de Tori chega a ser algumas vezes incompreensível e inreconhecível. Mas a frase inicial "you know what you know so you go break the terror of the urban spell" deixa claro o talento que Tori Amos tem como compositora.

Uma das minhas favoritas com certeza é "Dätura". Acompanhada por um piano bem presente e com destaque para vários arranjos eletrônicos. Nessa canção Tori faz uma relação de várias espécies de plantas que, segundo ela, cultiva em seu jardim. O início da canção chega a ser até que muito empolgante acompanhada de gritos "get out of my garden" e com um ritmo de piano bem acompanhado e expressivo junto com as batidas eletrônicas.
"Spring Haze" até parece ser uma continuação de "Dätura". Porém com uma melodia bem mais leve do que a anterior. Mas a música ganha vida quando no seu refrão começam a ser incrementados sons de bateria e um piano bem mais presente do que no início da canção.

E o desfecho do primeiro disco, o que tem músicas inéditas, não poderia ser melhor. "1000 Oceans" pode até parecer música de propaganda e filme (coisa que já aconteceu se você assistiu Seu Amor, Meu Destino). É aquele tipo de música que deixa você com a lágrima no canto do olho, mas não quer mostrar. Uma boa melodia acompanhada de um piano bem calmo como a música.

Já o segundo, um disco repleto de excelentes canções e interpretações, é para ser apreciado - mesmo para quem não conhece Tori Amos. Qualquer ser humano irá morrer de curisiodade para saber como uma mulher tem total controle sobre os teclados de um piano. Isso quando ela não toca teclado e piano ao mesmo tempo.
Destaque merecem canções como: "Precious Things" (numa versão inúmeras vezes melhor que a apresentada no álbum Little Eartquakes), "Cruel" (outra canção que já virou um clássico quando Tori toca ao vivo. A versão original pode ser encontrada no disco From The Choirgirl Hotel), "Cornflake Girl" (um dos momentos mais alegres e divertidos em que Tori Amos toca piano. A partir dessa canção que notamos que para ela o piano não é apenas um instrumento, é como se tivesse vida própria), "The Waitress" (numa versão nada comparável com a do álbum Under The Pink, acompanhada de solos de guitarras e gritos que conquistam o ouvinte em uma versão que chega quase aos dez minutos), "Cloud On My Tongue", "Girl" e mais. Outros destaques são os b-sides: "Cooling" e "Sugar", lindas por sinal, ainda no disco ao vivo.

É quase impossível de se imaginar tanto talento e habilidade nas mãos e voz de uma só pessoa. Chega a ser impressionante como a cantora não tem medo de encarar novos estilos. Também, é nessas horas que notamos o talento que essa maravilhosa pessoa tem.

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Junho 2001