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A
Corrente do Bem
Pedagogia
furada; péssimo é apelido
Por
Daniel Libarino
(Esta crítica
conta o final do filme)
A Corrente do Bem é um filme
inacreditável. Primeiro: o que Kevin Spacey
está fazendo aqui? Segundo: o que diabos
o filme quer provar com sua mania de comover com
mensagens estupidamente explícitas? É
fato: a película só nasceu mesmo
para computar o sucesso do garotinho Haley Joel
Osment, de O Sexto Sentido, que
teve de aceitar a primeira bomba lacrimosa que
os estúdios lhe oferecessem, antes de cair
no esquecimento. Não é este meu
desejo, mas poderia facilmente acontecer.
Mas vamos ao que interessa.
Existem películas que insistem em aplicar
fórmulinhas didáticas para entreter
o público e passar liçõezinhas
de moral edificantes. Caso o mesmo fôsse
endereçado ao espectador mirim, ok. Levando
em conta que não é este o caso,
e também pelo fato do filme levar tão
à sério uma trama que insiste em
querer mudar o mundo, soa pretensioso demais para
meu gosto. É aquela história: se
o roteiro fôsse menos tolo o bastante para
saber inserir sua filosofia de forma não-gratuita,
a dignidade prevaleceria. Pena que A Corrente
do Bem prefira a pieguice melada. E repito:
o que Kevin Spacey está fazendo aqui???
Trevor (Osment), um garotinho de 11 anos, se depara
logo no primeiro dia de aula com um professor
de face desfigurada: Eugene (Spacey). Em seu discurso
inicial, o mestre explica aos alunos qual será
seu primeiro trabalho escolar, que durará
pelo resto do ano letivo: mudar o mundo. Confuso,
Trevor - que mora com a mãe alcoólatra
(Helen Hunt) - pensa, pensa, e bola uma idéia
para o projeto.
Após abrigar um mendigo em sua própria
casa, mostra sua "corrente do bem" à
classe, que consiste em cada pessoa fazer uma
boa ação em prol de qualquer outra:
esta, por sua vez, terá de fazê-la
para outras três, e assim por diante, até
que todo o mundo seja contagiado pela nova onda
do momento. A segunda atitude do garoto será
unir sua mãe e professor, já que
seu verdadeiro pai (Jon Bon Jovi) trocou a família
pela bebida.
E não é só isto. Um dos maiores
problemas de A Corrente do Bem é
inserir uma traminha paralela desnecessária.
Logo no começo do filme um jornalista,
Chris (Jay Mohr), tem seu carro totalmente destruído.
Do nada, na mesma hora, chega um estranho e lhe
faz uma pequena caridade: dá de presente
seu Jaguar novinho em folha, e justifica-se dizendo
se tratar de "um pequeno favor entre estranhos".
Intrigado pelo milagre, corre atrás de
pistas para explicar tal loucura, descobre a existência
da tal corrente, e por aí vai.
Mimi
Leder (de Impacto Profundo) insiste
em não acrescentar nada que dê algum
crédito em meio a tanta porcaria. A
Corrente do Bem reúne três
dos atores mais requisitados de Hollywood no momento
para contar uma história que, de tão
moralista, acaba na estupidez das boas intenções
- ou no inferno, como preferir. O desenrolar da
trama é todo esquemático: junta
um emaranhado de clichês, manipula com suas
falsas dores emblemáticas e ainda levanta
a bandeira da paz em um dos desfechos mais idiotas
dos últimos anos.
Eu? Contra
a paz mundial? De forma alguma. As mensagens que
A Corrente do Bem passa são
positivas, não há como negar, porém
inseridas de forma escancarada e chororô,
que consagra o irreal e coloca que, se todos fizéssemos
o simples ato de doar um Jaguar novinho em folha
a um estranho, convidássemos um desconhecido
que está quase se jogando de uma ponte
para um café, ou mesmo chamássemos
um mendigo para morar em nossa casa, o mundo seria
melhor, e todos viveríamos felizes para
sempre. Ah, e caso o precursor de todo movimento
algum dia morresse precocemente, logo a notícia
se espalharia mundialmente e todos, de uma hora
para outra, se converteriam em pessoas melhores.
Lamento, mas a vida é muito mais complicada
que isto.
A
Corrente do Bem (Pay It Forward, EUA,
2000).
De Mimi Leder.
Elenco: Kevin Spacey, Helen Hunt, Haley Joel Osment,
Jay Mohr, James Caviezel, Angie Dickinson, Jon
Bon Jovi. 119 min.
Site
Oficial
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