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Concorrência
Desleal
Scola
e suas táticas
Por
Daniel Libarino
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O
cinema italiano, vez por outra, é sempre
constituído de um elemento-chave para
fisgar em cheio sua platéia cativa:
inserir crianças nas histórias.
Basta conferir os últimos trabalhos
de Giuseppe Tornatore para constatar-lhe certa
predileção pelo fato. E o público
adora crianças educadas/emocionadas
em um filme! Não é de todo ruim,
afinal, quem é que, no fim das contas,
resiste à um sorriso vindo de um dócil
guri? Isto desde que, claro, não caia
no exagero ou torne-se apenas uma tática
para ganhar Oscar (acho que nem preciso citar
qual obra rendeu-se à tal tentação).
Há os dois lados da moeda: de um, inserir
personagens mirins com absoluta coerência
e de acordo com o contexto da história
contada; de outro, abusar da paciência
ao levar o espectador ao choro fácil
incluindo crianças que ali estão
apenas para tal (patética) função. |
Concorrência Desleal prefere o muro,
ou até melhor dizendo, joga um pouco para
ambos os times. O mais novo trabalho de Ettore
Scola vem cheio de altos e baixos (assim como
seu anterior O Jantar), mas ainda
sim, conta com certa simpatia. O diretor novamente
volta a retratar as relações humanas
examinadas (leia-se suportadas) em um só
espaço.
Em O Jantar, a cena passava-se apenas
dentro de um restaurante; em Concorrência
Desleal, a trama ocorre basicamente em
uma ruazinha italiana situada em 1938, ano em
que Hitler e Mussolini selavam alianças
para combater os que não pertencessem à
chamada raça ariana, esquentando a união
entre nazistas e fascistas.
Umberto (Diego Abantantuono) é um comerciante
católico para lá de tradicional
que, certo dia, percebe que as vendas estão
indo muito mal. Culpa de Leone (Sergio Castellitto),
judeu que monta outra loja de tecidos e, ainda
por cima, ao lado da sua, e que, facilmente, seduz
o consumidor devido às novas tendências
em criar promoções - suas idéias
visionárias são imbatíveis.
É daí que surge o embate entre os
dois, acirrado ainda mais pelas relações
entre seus casais de filhos - isto sem falar,
óbvio, na diferença de crenças
entre as duas famílias.
Há como fazer algumas comparações
entre Concorrência Desleal
e O Jantar. Além das já
citadas anteriormente (e de ambas resultarem em
obras apenas razoáveis), as duas são
dotadas de certa segurança em seus personagens
(fruto da direção de Scola para
com os atores), mas ainda sim com certo teor de
inconsistência no roteiro. Scola retratou
as duas distintas realidades com a intensa fragilidade
que ambas carregavam em seus personagens, mas
a impressão que se tem a seus finais é
que faltou algo. Talvez esta ausência de
uma base mais sólida seja mesmo a característica
que o cinema de Scola quisesse exprimir nestes
dois últimos títulos, fazendo referência
ao universo inseguro que caracterizava os tipos
expostos em tela.
Porém, tal recurso falha à medida
que não deixa o espectador acomodado com
tais métodos; a sensação
é frouxa, logo, incompleta.E há
ainda a indecisão de Concorrência
Desleal em virar um produto de seriedade
comprovada ou de apenas entrar para o filão
das imundices egocêntricas (liderada por
A Vida É Bela). Até
metade da projeção (e na última
cena), as personagens crianças tem só
função emotiva; depois, com o desenrolar
de fatos importantes na trama, elas inserem certo
grau de maturidade para com o assunto discutido.
Outro agravante no resultado final da película
são as discussões entre católicos,
fascitas e judeus. Scola não consegue fugir
do óbvio: em algumas cenas quase caindo,
pasmem, para o pastelão. São estes
deslizes que fazem Concorrência Desleal
despencar vertiginosamente em qualidade. Mas o
filme tem bons momentos, pois, apesar das mancadas,
Scola o fez com plasticidade impecável;
difícil não notar as belas imagens
vindas dos ângulos terrestres captados pelo
diretor. O elenco é responsável
por toda simpatia do público com os respectivos
personagens, difícil não se envolver
(apesar de certa manipulação). E
após mais de uma hora de esquentamento,
o filme finalmente chega a tocar com delicadeza
nos assuntos centrais da obra: intolerância
e fraternidade. São nas seqüências
que os contém que, por fim, reside o verdadeiro
calor de Concorrência Desleal.
Concorrência
Desleal (Concorrenza Sleale, França/Itália,
2000).
De Ettore Scola.
Elenco: Diego Abatantuono, Sergio Castellitto,
Gérard Depardieu, Jean-Claude Brialy. 111
min.
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