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Coldplay
- Parachutes / A Rush of Blood to the Head
Bons
jogadores
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Parachutes |
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A
Rush of Blood to the Head |
Por
Rodrigo Kawano
Como
não associar Coldplay, gíria criada
pelos jovens integrantes da banda que significa
um time com bons jogadores (good players),
à canção "Yellow",
aquela balada romântica dos famosos versos
repletos de idealização ("Olhe
para as estrelas / Veja como brilham para você
/ E para tudo que você faz")? Depois
de dois álbuns magníficos, Parachutes
(2000) e A
Rush Of Blood To The Head (2002),
o quarteto britânico ainda não foi
capaz de superar esse sucesso radiofônico
fora da Inglaterra. De fato, por vezes, com ótimas
músicas de trabalho, eles ainda passam
relativamente despercebidos pelo grande público.
Entretanto, o líder e vocalista Chris Martin
e sua trupe têm uma vasta gama de outras
cores além do já enfadonho "amarelo"
em sua paleta.
O
fado não é incomum. Depois de um
grande sucesso, os artistas têm grandes
expectativas a superar em seus trabalhos subseqüentes.
Thom Yorke e o aclamado Radiohead, após
a monumental aceitação de "Creep"
(Pablo Honey, 1993), enfrentaram
e venceram expectativas com o lançamento
de The Bends (1995), um excelente
trabalho muito lembrado em Parachutes
e, em menor escala, em A Rush Of Blood To
The Head. Enquanto o Radiohead obteve
sucesso, os rapazes do Los Hermanos, depois de
"Anna Júlia" (Los
Hermanos, 1999), apesar de um honroso
trabalho em Bloco do Eu Sozinho
(2001), falharam em manter a popularidade. Mas
os bons garotos do Coldplay, com o lançamento
de seu disco mais recente, já arremataram
críticas excelentes e o primeiro sucesso,
a melódica e promissora "In My
Place".
Parachutes é por excelência
um álbum de estréia notável.
A estrondosa "Shiver", um dos
grandes destaques e primeira música de
trabalho, faz jus ao estilo vocal e instrumental
da banda em geral. Os arrepios na espinha são
um bônus à parte nessa ode ao amor
incondicional, porém rejeitado. Uma explosão
de guitarras antes do primeiro verso anuncia uma
liberação emocional e entusiasta
característica. "Do momento em
que eu acordar / Até o momento em que for
dormir / Estarei ao seu lado / Tente me impedir
(...) Sempre estarei esperando por você".
Enquanto a música anterior, "Don't
Panic", que abre o disco, foi um single
de grande carga otimista ("Tudo que eu
sei é que aqui não há do
que correr / Pois aqui todos têm em quem
se apoiar"). "Spies"
e "Sparks", em especial a última,
induzem a uma melancolia sem precedentes. "Eu
acordo para perceber que ninguém é
livre / Somos todos fugitivos / Olhe o jeito em
que vivemos / Aqui embaixo eu não posso
dormir de tanto medo", entoa Martin em
um ambiente intensamente ansioso em "Spies",
enquanto em "Sparks" o tom depressivo
nos vocais desconcertantes canta o refrão
mais simplista possível ("Eu digo
'ahhh', eu choro 'ahhh'"), com tanta
angústia e emoção que se
torna ridiculamente emocional. E assim a banda
alterna habilmente entre a melancolia do amor
incondicional não-correspondido e a desilusão
amorosa, e o otimismo contagiante e vigoroso das
juras de amor. Nem mesmo a faixa escondida "Life
Is For Living" deixa a desejar.
Parachutes caminha deliberadamente
entre essa angústia desiludida e arrependida
até o idealismo juvenil cerceado de positividade
como um diário pessoal que fotografa momentos
de entusiasmo desmedido e depressão de
qualquer pessoa comum. Por isso, torna-se um álbum
tão tocante como humano, construído
sobre histórias que hora despedaçam,
hora fortificam. "Nós nunca mudamos,
não é? / Não, não
/ Nós nunca aprendemos, não é?
/ Então eu quero viver em uma casa de madeira
/ Onde fazer mais amigos seria fácil".
"We Never Change" contrasta-se
claramente com "Everything's Not Lost":
"Quando você pensou que era o fim
/ Você podia sentir ao seu redor / Todos
querem te derrubar / Não deixe isso te
abalar / Pois se você se sentir negligenciado
/ Se você pensar que tudo está perdido
/ Estarei contando meus demônios / Esperando
que nem tudo esteja perdido". A devoção
empenhada em cada falsete pelo vocal Chris Martin
rende-lhe constantes comparações
a Thom Yorke, do Radiohead, e até mesmo
a Jeff Buckley, comumente
citado como uma grande influência do quarteto.
Não é a toa que Parachutes
escalou as paradas britânicas instantaneamente,
chegando ao topo, com direito a prêmios
e badalação. As letras, tanto do
primeiro quanto do segundo álbum, podem
não deter uma carga poética tão
expressiva como "Why does it always rain
on me?" ou "The last laugh of
the laughter" (dos contemporâneos
Travis, The Man Who,
1999), mas são tão emocionais quanto,
em parte graças ao timbre atingido por
Chris em momentos de intensa introspecção,
em parte devido à guitarra autêntica
de Jonny Buckland, inspirado em George Harrison
e Johnny Marr (The Smiths), entre outros.
A
Rush Of Blood To The Head inicia-se com
a vigorosa "Politik", que afirma
convicções através de batidas
fortes e guitarras enérgicas ("Dê-me
tempo e dê-me espaço / Dê-me
real, não me dê falso"),
mas é "In My Place", em
seu arrependimento, que merece maior atenção.
A esperança por um futuro próspero
depois da perda pode ser apenas uma das sensações
que essa música pode provocar. Já
"God Put A Smile Upon Your Face"
é um poço de tensão, construída
gradativamente até o ponto de busca frenética
e antecipação pela resolução
de impasses: "Aonde vamos para demarcar
os limites?".
Mas é "The Scientist"
que constitui, de fato, um dos maiores destaques
desse novo trabalho. O clipe é espetacular
e somente adiciona a essa balada que se inicia
com um piano melancólico. À medida
que o violão entra, troca-se a tristeza
inicial por um sentimento sutil de otimismo, até
que o baixo traz, afinal, esse sentimento ao primeiro
plano perto do fim. De forma análoga, o
vídeo de "The Scientist",
inteiro de trás para frente, exceto pela
boca do vocalista, que canta a música normalmente,
inicia-se com uma caminhada através da
dor, que logo se revela posterior a um acidente
de carro que mata a garota no banco do passageiro.
À medida que o clipe chega ao fim, assim
como a música, o ambiente fica mais leve
e harmonioso, entre sorrisos e guitarras inabalavelmente
vitais.
"Clocks" é outra excelente
canção, ansiosa, desesperada, inquieta.
O ritmo alucinado remete à vontade solucionar
os obstáculos impostos pela vida e à
confusão que se estabelece com contratempos
como "Marés contra as quais tentei
nadar". Destaca-se, nessa faixa, o baixo
de Guy Berryman. "Green Eyes"
é uma declaração de amor
introspectiva que beira a simplicidade. Nem por
isso sua beleza é ofuscada pelas outras
faixas.
A melodia reflexiva e inspiradora de "Warning
Sign" mais uma vez lida com o arrependimento,
com o erro. Quando uma banda transforma um pedido
informal de desculpas em uma apologia à
saudade e à arte, não restam críticas
relevantes. Já faixa que dá título
ao álbum expressa profunda desilusão
e descrença, enquanto a raiva, presente
desde os versos iniciais, fica mais evidente no
refrão, através de uma explosão
sonora. "Então eu vou comprar uma
arma e começar uma guerra / Se você
puder me dizer uma razão digna para lutar".
A tristeza de "Amsterdam" fecha
A Rush Of Blood To The Head com
um toque de honestidade e ressentimento suficiente
para persuadir qualquer um de que o rock, mesmo
não sendo original, pode ainda ser orgânico,
intenso e provocante.
Enquanto comparações com The Verve
e Radiohead são comuns, também é
possível admitir certas similaridades entre
Coldplay e Pink Floyd. Nem por isso a banda deixa
de merecer crédito pela capacidade melódica,
destreza instrumental e carga emotiva. Eles são,
de fato, bons "players".
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