Código Desconhecido

Código Desconhecido
Michael Haneke nos mostra seu cinema com e sem alma

Por Daniel Libarino

Vamos pensar de outra forma. Pegue o rolo de um filme já pronto. Depois, corte-o em diversos pedacinhos para, após, remendá-lo, sem qualquer ordem. Pronto. Saiu do forno o que é chamado de montagem fragmentada: uma sucessão de imagens apresentadas como um quebra-cabeça desmontado, cabendo ao espectador, ordená-las em sua cabeça, de forma coerente, para um possível entendimento da trama. E foi esta a fórmula que Michael Haneke (de Funny Games - Violência Gratuita) usou para contar sua história no francês Código Desconhecido, seu segundo longa. O problema é que o diretor caiu no próprio truque, e fez do filme uma experiência interessante, porém, ineficaz em vários momentos.

Tudo começa com uma discussão numa rua de Paris, que irá cruzar o destino de alguns personagens. Temos Anne (Juliette Binoche, sublime como sempre), uma atriz que está lançando um filme. Seu marido Georges (Thierry Neuvic) é um fotógrafo em guerra que mal fica em casa, preferindo a loucura da batalha que a cotidiana. Seu irmão mais novo, Jean (Alexandre Hamidi), mora com o pai (Josef Bierbichler) numa fazenda, não se dando bem com o próprio, fechando assim o círculo familiar.

Temos também Maria (Luminita Gheorghiv), uma imigrante ilegal deportada da Romênia, que sofre com a guerra em seu país e com o descaso de todos que cruzam seu caminho, devido a sua situação social. E há o jovem negro, pobre, que vive com seus pais e três irmãos, agüentando, de todos os lados, os preconceitos pela cor da pele.

Pegando todos estes exemplos, Haneke traça um perfil da intolerância cotidiana, no qual o tal "código desconhecido", que deveria unir todos os seres, está muito longe de ser descoberto. Mas ao mostrar as angústias vividas pelos personagens usando uma narrativa não-linear, o diretor acaba se perdendo nas imagens, mostrando uma miscelância de cenas que acabam perdendo muito do impacto pretendido devido aos cortes bruscos de sua montagem fragmentada. A idéia foi interessante, mas faltou uma certa maturidade no comando das seqüências.

O bom em Código Desconhecido é que os atores dão um show em cena, expressando a sombria sensação de solidão e incompreensão que o diretor não conseguiu exprimir em seu segundo trabalho. E certos detalhes da obra são belos, como a seqüência final, que não se dá ao trabalho de explicar seu significado, deixando que a platéia encontre o melhor modo de entender o cinema mudo que lhe é apresentado. Simplesmente arrasador. Há também o momento do metrô, no qual a personagem de Binoche encontra um pequeno obstáculo em sua jornada. Atinge.

Mas uma pena que estes, e outros bons momentos, sejam quase uma agulha num palheiro. Usando este modo "quebra-cabeça" de expressão, o filme acabou forçado a ser uma junção de cenas obrigadas a parecerem interessantes, a ponto de prenderem o espectador. O que não acontece. Há certas partes de Código Desconhecido que são estritamente desnecessárias, não acrescentando elemento algum para a compreensão da trama, ou até mesmo para entreter o público. No fim das contas, Código Desconhecido quis diferenciar-se, mas quase acabou resultando em frieza, fazendo do truque seu maior defeito, explícito e mal contado. Sobram as criativas idéias narrativas, expressas valiosamente pelo elenco, e que, ao menos, fazem a gente sair do cinema pensativo, com aquela sensação de que sentimos alguma coisa naqueles 117 minutos de projeção. Seu mérito esta aí, fazendo desta uma razoável e curiosa experiência.


Código Desconhecido (Code Inconnu - Récit Incomplet de Divers Voyages, França, 2000).
De
Michael Haneke.
Elenco: Juliette Binoche, Thierry Neuvic, Josef Bierbichler, Luminita Gheorghiu, Alexandre Hamidi. 117 min.
Site Oficial

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Setembro 2001