Jeff Buckley - "Grace"

Jeff Buckley - Grace

Por Eddie Schäfer

Você já lamentou a falta de alguém mesmo que nunca tenha chegado a conhecer essa pessoa? Eu já. Jeff Buckley, assim como seu pai (o cantor de folk rock Tim Buckley), teve uma carreira curta, porém brilhante. Basta escutarmos as dez faixas do seu primeiro álbum, Grace, para nos encantarmos com uma voz angelical - que alcança, sem soar exagerada, níveis raramente explorados por artistas masculinos -, arranjos de guitarra que lembram serenatas e letras que parecem saídas do diário de um homem extremamente apaixonado. Não é a toa que ainda hoje vários músicos tenham o seu trabalho como fonte de inspiração.

Em 1995, Grace ganhou na França o renomado "Gran Prix International Du Disque - Academie Charles Cros - 1995", um prêmio concedido por um júri de profissionais da indústria fonográfica, jornalistas e o presidente do Ministério de Cultura da França. Um prêmio apenas para grandes artistas, e entregue anteriormente a figuras do porte de Edith Piaf, Joan Baez, Joni Mitchell, Bob Dylan, Leonard Cohen e Bruce Springsteen.

As influências de Buckley, que negava qualquer ligação com o trabalho do pai, passa pelo rock indie dos Smiths e tem grande presença de Led Zeppelin, perceptível na primeira faixa do disco. "Mojo Pin", que tem um início agradável e um andamento que a torna gradativamente mais agressiva, é apenas uma prévia de todo o profissionalismo de Buckley.

A faixa título tem um dos inícios mais animados do disco, uma melodia de guitarras misturada ao som de um violão folk. Sem desmerecer a voz do cantor, que soa harmoniosa e expressiva como no trecho: "And I feel them drown my name so easy to know and forget with this kiss". Já "Last Goodbye", seu grande hit, é a música que muitos já escutaram, mas nunca souberam dizer o nome do autor. E a frase "Kiss me, please kiss me but kiss me out of desire, babe, and not consolation" é de deixar qualquer um apaixonado ainda mais apaixonado e comovido.

"Lilac Wine", "Corpus Christi Carol" e "Hallelujah" (esta última, um cover de Leonard Cohen, também gravada por Rufus Wainwright na trilha sonora de Shrek) são baladas marcantes. Nessas faixas as guitarras são tratadas como instrumentos de serenidade, e a voz soa agradavél, quase fazendo delas canções de ninar. Há críticos que fazem uma relação ao estilo da cantora Sinead O´Connor na forma de cantar de Buckley, como se suas palavras fossem lágrimas que a força da emoção precisa derramar. Enquanto isso, em "So Real" a guitarra de Michael Tighe ganha destaque nas partes mais lentas, que logo irão se deixar perder no som pesado que chega com o refrão, recebendo o acompanhamento de uma bateria onipotente.

A banda de Buckley também sabe abusar das guitarras no melhor estilo de rock, como se exige na faixa "Eternal Life", muito parecida com o que, atualmente, bandinhas passageiras fazem - sem um vocalista ao nível.

"Lover, You Should’ve Come Over" começa ao som de um orgão fúnebre, dando início a uma confissão sobre a amante da letra. Imagine aquela música de dançar coladinho, mas que tem seus momentos altos (graças ao fabuloso desempenho vocal - como em todo disco). E quem é o homem que tem coragem de dizer "And much too blind to see the damage he's done, sometimes a man must awake to find that really, he has no-one" para o mundo? A música se torna cada vez mais brilhante na medida que exige um maior desempenho de Buckley. Créditos merece também a banda que o acompanha, responsável por grandes momentos orquestrais da canção.

Lamentavelmente, quando o cantor estava em fase de finalização de seu segundo disco (Sketches for my Sweetheart the Drunker) a história iria se repetir mais uma vez na família. Animado com o novo trabalho, foi a um local chamado Mud Island Harbor, nadar no Rio Mississippi e, poucos minutos depois, desapareceu.

Somente quatro dias após o incidente seu corpo foi achado e até hoje Jeff Buckley conquista novos fãs e deixa saudades em outros. Morreu aos 30 anos e não há voz que se iguale à tristeza das confissões feitas em seu disco de estréia. Ele foi único e continuará fazendo falta.

<<< Voltar
Fevereiro 2002