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Legalmente
Loira
Mais
cenas da vida
Por
Daniel Libarino
Acredito
que haverão pessoas que ainda sentirão
repulsa ao darem de cara com o pôster de
Legalmente Loira, tendo a enganosa
idéia de se tratar apenas de mais uma bobagem
para adolescentes. Tolice. Apesar de realmente
ter tal público como alvo principal, a
verdade é que o filme vai mais além,
permite diferentes leituras e, por seu aspecto
"frágil", dará a falsa
impressão de inutilidade. Quem for ingênuo
o bastante para não perceber o tom satírico
da película, não gozará dos
agradabilíssimos momentos de prazer que
ela proporciona. E não é possível
que ninguém notará tal posicionamento
- a começar pelo título!
Reese
Witherspoon pode não ser uma atriz ainda
de muito prestígio, mas a garota é
esperta, e atua bem. Fugindo de comédias
fáceis, prefere aquelas que exalem pesada
acidez, como no surpreendente Eleição,
ou leve pitada de escárnio, como aqui,
neste Legalmente Loira, no qual,
ao final, fica óbvio tratar-se de um filhote
do igualmente ótimo As Patricinhas
de Beverly Hills. Evidente também
que Amy Heckerling moldou seu trabalho com diálogos
mais analíticos e inteligentes, pois tinha
a oculta pretensão de mostrar um sólido
painel dos jovens nos anos 90. Ninguém
o entendeu. Robert Luketic, por sua vez, não
abre mão em satirizar o mundo cor-de-rosa,
mas prefere um desenvolvimento mais típico,
em um roteiro com menor elaboração
de referências e mais concentrado no humor.
É seu primeiro trabalho como diretor, o
que, de forma alguma, anula suas intenções,
afinal, as propositais caricaturas de Witherspoon
se mantêm firmes durante todo tempo. E outra:
o filme faz chorar de tanto rir.
Logo no início de Legalmente Loira,
as cores (ou melhor, a cor) se definem, e o filme
já diz a que veio: brincar com todo aquele
estereótipo preconceituoso de "loira
burra". Se o filme defende ou escracha ainda
mais os que se encaixam neste panorama, fica a
critério de cada um. Elle Woods (Reese)
é uma patricinha apaixonada por seu namorado
Warren (Matthew Davis, que deu um show em Tigerland
- A Caminho da Guerra). Certo dia vai
jantar em um restaurante a convite do rapaz, crente
que receberá um pedido de noivado. A euforia
dá lugar ao choro, quando ele dá
a notícia de que quer o término
do relacionamento, pois, em breve, cursará
Direito em Harvard, e presume que a relação
não será boa para seu futuro profissional.
A partir daquele momento, precisaria de uma mulher
mais séria a seu lado.
Arrasada,
a garota entra em estado de depressão chocólatra,
até ter uma brilhante idéia: tentar
o exame para entrar em Harvard, provando a todos
seu valor e, de quebra, conseguindo seu namorado
de volta. E ela consegue. Ao chegar lá,
o contraste é inevitável. Em meio
a sérios estudantes vestidos com roupas
casuais, chega Elle, toda espalhafatosa, desfilando
butiques com seu inseparável cachorrinho,
sempre com um sorriso no rosto. Determinada, enfrenta
o deboche de toda a comunidade de ensino, piorado
com o desgosto de Vivian (Selma Blair, de Segundas
Intenções e Storytelling),
atual namorada de Warren. Com o tempo, mostrará
que não está para brincadeiras,
apoiada ainda por Emmet (Luke Wilson, de Meu
Cachorro Skip), um aluno mais experiente.
O
final? Bem, assistindo à meia-hora de produção,
todos já terão uma bela noção
de como será. Mas em tempos de comédias
ruins e apelativas (Todo
Mundo em Pânico 2, Diga
que Não É Verdade, Cara,
Cadê Meu Carro?, entre outras),
Legalmente Loira veio para dar
um banho em inteligência. Leve, divertido
e com piadas fenomenais, ainda acerta em cheio
na parte crítica, num mundo no qual manicures
também atuam como psicólogas, convivendo
com pessoas limitadas pelas próprias imposições
que lhes foram atribuídas. Se As
Patricinhas de Beverly Hills gerou a lista,
Legalmente Loira assina embaixo.
E se o cinema hollywoodiano nos premiasse esporadicamente
com comédias sensacionais como estas, este,
com certeza, sairia do limbo no qual provavelmente
está deveras atolado. Um filme digno.
Legalmente
Loira (Legally Blonde, EUA, 2001).
De Robert Luketic.
Elenco: Reese Witherspoon, Luke Wilson, Selma
Blair, Matthew Davis, Ali Larter, Jennifer Coolidge,
Victor Garber. 96 min.
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