Falcão Negro em Perigo

Falcão Negro em Perigo
A Arte da guerra

Por Eddie Schäfer

À primeira vista, Falcão Negro em Perigo tinha tudo para ser o sucessor da bomba Pearl Harbor, já que a história envolve o exército "modelo" americano e quem assina a produção é Jerry Bruckheimer. Porém, o novo filme de Ridley Scott (de Hannibal e Gladiador) traz uma linguagem muito mais realista do que a produção anterior de Bruckheimer. Mantém, ainda assim, alguns elementos que incomodam o espectador.

Baseado em fatos reais, o filme relata a história de um grupo de soldados de elite (voluntários) norte-americanos enviados a Somália em 1993, como parte de uma operação de paz da ONU. Quando a missão é iniciada, os habitantes da cidade de Mogadishu voltam-se contra o exército americano, transformando o local numa zona mortal. A missão, que tinha como objetivo seqüestrar o líder de uma milícia local que roubava suprimentos enviados às vítimas de desnutrição, deveria durar menos de uma hora. Entretanto, ganha proporções assustadoras a partir da queda de dois helicópteros americanos sobre o local (razão pela qual o título em inglês funciona melhor), obrigando os soldados americanos a viver mais de doze horas de terror.

Baseado no best seller do jornalista Mark Bowen, a sensação que o novo trabalho de Ridley Scott nos proporciona é a mesma dos minutos iniciais de O Resgate do Soldado Ryan. Aqui, porém, estendendo a mesma idéia por duas longas horas, e levando o espectador para o lado instintivo da guerra, nunca explorando as fraquezas e passado de seus personagens como Spielberg. Não há personagem principal em Falcão Negro em Perigo, apesar do elenco que conta com nomes quentes de Josh Hartnett (de Pearl Harbor, querendo limpar a ficha e que ainda se mostra um ator morno), Ewan McGregor (do musical Moulin Rouge), Eric Bana e Tom Sizemore. Todos são meros coadjuvantes. Mesmo que não se explore o passado de cada um dos personagens (muitos dos quais nem sabem por que lutam - afinal, os Estados Unidos estavam intervindo na região), suas idéias e ações são as mesmas de qualquer blockbuster - lucrar alto nas bilheterias (esse é o terceiro filme de Scott que vem tendo êxito de público).

É claro que o trabalho de Ridley Scott tem pontos altos como a bela fotografia e imagens fortes que acabam mexendo com o espectador pelo excesso de realismo e dramaticidade, porém o mesmo não pode ser dito à respeito do seu roteiro ou até mesmo de sua direção, que em alguns momentos ganha um comando especial de Bruckheimer. É impressionante ver como a morte de dezoito soldados norte americanos ganha proporções imensuráveis diante dos mais de 1000 somalis (dentre estes civis) que perderam suas vidas como insetos.

Outro aspecto que incomoda são diálogos do tipo "nenhum homem ficará para trás" e a duração excessiva das cenas de violência, o que acaba por banalizá-las e não deixa clara a razão do filme existir. Afinal de contas, o continente africano continua sendo o mais pobre do mundo e a desnutrição ainda causa milhares de mortes por ano.

Indicado a alguns Oscars, incluindo o de Melhor Direção (tomando o lugar que, se esperava, fosse do Moulin Rouge de Baz Luhrmann) Falcão Negro em Perigo não faz por merecer tanto aplauso. Mesmo assim, na cerimônia do dia 24 de março, o filme surpreendeu, ao levar para casa as estatuetas de Melhor Som e Melhor Montagem.


Falcão Negro em Perigo (Black Hawnk Down, EUA, 2001)
De Ridley Scott.
Com: Josh Hartnett, Ewan McGregor, Tom Sizemore, Eric Bana, William Fichtner, Sam Shepard. 144 min.
Site Oficial

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Março 2002