A Enfermeira Betty

A Enfermeira Betty
A vida sonhada dos anjos

Por Daniel Libarino

Atire a primeira pedra quem nunca sonhou em conhecer alguém famoso. Ou apenas pensou no assunto. Seja um ídolo da música, do cinema, da tv, do esporte, ou o que for, a idolatria - seja ela moderada ou exagerada a pessoas freqüentes na mídia (e em nossas mentes) pode ser estimulada, entre outros aspectos, pela necessidade do ser humano em espelhar-se em algo, até mesmo para definir sua própria personalidade (no caso de alguns jovens). Ou para preencher um vazio que acomoda e incomoda um ser que, descontente, procura uma fuga que lhe sirva de apoio, que dê calor, um motivo a mais para continuar sua jornada.

Mas sem querer aprofundar-me demais em tais temáticas psicológicas, prefiro antes ressaltar que A Enfermeira Betty é e não é um filme fácil. Talvez tudo o que escrevi no parágrafo anterior seja pouco para definir o quão complexa é a trama da película. Ou talvez, tudo aquilo não passe de pura besteira, se relacionada ao contexto do filme. Sair de uma sessão de Nurse Betty com uma sensação de paradoxo não é pouco comum, pois, no fim das contas, fica uma leve dúvida se este novo Neil LaBute é apenas uma comédia para entretenimento ou se vai mais além, se questiona e/ou critica. Ou os dois.

Pode ser que A Enfermeira Betty não fuja daquelas diversões-pipoca, que apresenta atrativos baratos e suficientes para fisgar seu público alvo - aqui temos as telenovelas, o galã, a fã-sonhadora e, de quebra, dois bandidos espertinhos. Por outro lado, não há como deixar de notar certo teor satírico implantado nos pseudo-clichês. Mas o mais interessante é que os artifícios usados por LaBute para concretizá-lo são aqueles próprios que, invariavelmente, caracterizariam o filme apenas como "diversão para não pensar". Lendo parece estranho, assistindo é pior ainda.

Mas ser um filme ambíguo não é crime, pelo menos no caso de Nurse Betty, que encanta mesmo quando pretende ser um falso romance, ou uma melosa autocrítica. Talvez o segundo seja conseqüência direta do primeiro. Ou, a pretensão do roteiro esteja mesmo relacionada em fazer uma autocrítica, mas que acaba decaindo para o falso romance. Será que Neil LaBute queria provocar sensação de simples conforto ou de agradável desconforto analítico? Mesmo que a indecisão pareça ser a resposta mais concreta, um fato é inegável: A Enfermeira Betty é, por mais confusas que elas sejam, um filme com idéias, para refletir.

Betty (Renée Zellweger, de O Diário de Bridget Jones) é uma garçonete de um simplório restaurante, situado em uma cidadezinha pacata. Sonhadora que só ela, não passa um dia sem assistir ao novo capítulo de sua novela favorita, A Reason to Love, protagonizada pelo personagem de Dr. David Ravell, interpretado pelo famoso ator George McCord (Greg Kinnear, de Melhor É Impossível e O Dom da Premonição). Casada com Del (Aaron Eckhart, de Erin Brockovich), é tão meiga e inocente que não percebe a infidelidade do marido - e nem os negócios sujos no qual ele participava. Até que um dia, escondida em um cômodo de sua casa, presencia o assassinato de Del por dois desconhecidos (Chris Rock e Morgan Freeman). Pois é a partir daí que Betty entra em um estado de confusão mental, acreditando verdadeiramente ser uma das personagens da tal novela, no caso, uma enfermeira, antigo amor do Dr. David. Parte então para Los Angeles, em busca do personagem fictício, o suposto amor de sua vida, perseguida, ainda, pelos dois malfeitores.

É quase impossível não simpatizar-se por Betty. É uma criatura tão doce e ingênua que faz o espectador torcer por ela a cada minuto. Como em uma novela (fator diversão). Mas há o personagem de Morgan Freeman, que nutre uma paixão platônica pela "enfermeira", pois vê em Betty uma chance para livrar-se daquela vida ingrata, uma segunda chance (fator "a mais"). E no geral, resulta em todo aquele clima não-ácido, por vezes tão grandioso e encantador que deixa o espectador envolvido, porém atento (fator crítico).

Mas seja lá qual for o verdadeiro espírito de A Enfermeira Betty, fato mesmo é se tratar de uma obra muito superior a um outro filme de Neil LaBute, o horrendo Seus Amigos, Seus Vizinhos, este sim, para lá de enrustido. Betty, apesar das oscilações, é fita agradabilíssima, estimulante, que tende a ficar na memória de quem o assistir por um bom tempo. Uma boa lição, em embalagem (quase) de sitcom.



A Enfermeira Betty (Nurse Betty, EUA/Alemanha, 2000).
De Neil LaBute.
Elenco: Morgan Freeman, Renée Zellweger, Chris Rock, Greg Kinnear, Aaron Eckhart. 110 min.
Site Oficial

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Novembro 2001