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Bem-Vindos
O
calor da união
Por
Daniel Libarino

Não
há como começar um texto sobre Bem-Vindos
sem antes fazer uma grande recomendação:
assistam a Bem-Vindos! É
daqueles filmes que, quando acabam, provoca uma
imensa vontade de sair e indicar à todos
seus conhecidos, abraçar os amigos, perdoar
a quem ainda não esteja, brincar com o
cachorro e, quem sabe, reavaliar sua condição
e converter-se em uma pessoa melhor. Parece exagero,
mas Lukas Moodysson (de Amigas de Colégio)
conseguiu uma proeza mais que significativa: transformou
seu novo trabalho em uma celebração
à vida.
Você se lembra
de uma série televisiva chamada Anos
Incríveis? O personagem Kevin Arnold,
já adulto, narrando sua vida desde a infância
até o início da idade adulta, passando,
claro, por sua curiosa adolescência, vivendo
seu amor (Winnie Cooper, lembram-se?), curtindo
as valiosas amizades, aturando seu irmão,
iniciando grandes descobertas, tudo sob o pano
de fundo da era hippie, os famosos anos 70.
Não, Bem-Vindos sequer é
baseado no extinto programa, não tem parentesco
próximo e nem trama parecida. Ocorre que,
enquanto no seriado os seguidores do ideal simbolizado
pela política do "Paz e Amor"
servem apenas como pano de fundo à vida
do protagonista, neste filme, eles são
os personagens principais. Outro ponto em comum?
Ambos são uma delícia de assistir!
Elisabeth (Lisa Lindgren) é mulher que
vive conturbadamente com o marido, este alcoólatra,
e seus dois filhos. Certo dia, dá um basta
na situação e abandona sua casa,
juntamente com as crianças, por causa do
vício do indivíduo. É aí
que passa a morar com o irmão Goran (Gustav
Hammarsten). Até agora, nada de novo. Mas
estamos no ano de 1975. Goran é hippie
e mora em uma comunidade alternativa com um bando
de amigos seguidores do ideal.
E começam as contradições.
Logo quando chega no novo lar, Elisabeth e seus
filhos se deparam com uma situação,
no mínimo, esquisita: uma discussão
entre dois moradores do local. Uma garota que
quer andar pelada pela casa sem ser advertida
é "censurada" por um rapaz que
não concorda com o fato. Para dizer a verdade,
ele nem liga para isto, mas, claro, tem que manter
seu status de "palhaço do recinto".
E regado a sexo livre, comida vegetariana, vinho
e argumentações politizadas, todos
os membros terão suas vidas mudadas para
sempre.
O legal de
Bem-Vindos é que nenhum
personagem se mostra tão seguro de suas
idéias como eles mesmos pensavam. O contraste
entre todos é inevitável, mas cada
um acaba aprendendo com o próximo e cedendo
e tolerando mais às diferenças.
O contexto é parecido com estes programinhas
modernos que tentam mostrar a "vida real":
junta-se um punhado de pessoas de realidades e
pensamentos distintos para acompanharmos as reações
diante da situação. No filme, os
personagens se mostram abertos a novas experiências,
mesmo que vão totalmente contra o que defendiam
anteriormente.
O diretor
se mostra um exímio e humano contador de
histórias. Apesar de Bem-Vindos perder
muito tempo com uma estúpida e politizada
guerrinha ideológica entre os amigos hippies
- que dura metade do filme, árdua -, acerta
em cheio quando decide dispersar-se do assunto
para tratar, finalmente, dos dramas e sentimentos
que assolam a pequena comunidade. Todos (inclusive
o espectador) acabam se surpreendendo com as próprias
atitudes ao perderem as ilusões que lhes
eram próprias, sempre abrindo espaço
para o, até então, desconhecido
- leia-se reprimido.
Bem-Vindos
mostra que nem toda idéia defendida pode
vir a ser a mais correta e que o ser humano é
falível, mas não menos digno de
compaixão. Incrível como Lukas trata
de temas tão comuns com tanta riqueza e
sensibilidade. Suas filmagens lembram muito os
preceitos do "Dogma 95", mas, ao invés
das imagens frias e cinzentas, preferiu inserir
tons avermelhados e cores alegres para pintar
seu rico painel sobre temas universais: amor,
solidão e, enfim, redenção.
Isto sem falar na trilha-sonora, deliciosa, com
canções no melhor estilo Abba de
ser (ou, de cantar).
E não
há mais o que dizer, só assistindo
para crer. Bem-Vindos é prazer
irremovível e, desde já, um dos
melhores filmes do ano. Faça um favor à
você mesmo: não perca-o de jeito
nenhum.
Bem-Vindos
(Tillsammans/Together, Suécia/Dinamarca/Itália,
2000).
De Lukas
Moodysson.
Elenco: Lisa Lindgren, Michael Nyqvist, Gustav
Hammarsten, Anja Lundkvist, Jessica Liedberg.
106 min.
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