Avassaladoras

Avassaladoras
Auto-ajuda para peruas plastificadas

Por Daniel Libarino

É quase inevitável que uma comédia de relacionamentos caia em clichês. Quase; há exceções - Paixão e Sedução é uma delas. O que estraga uma produção do tipo não são necessariamente os chavões, mas sim o tratamento recebido por eles. Caso contrário, filmes como Um Lugar Chamado Notting Hill, Amor aos Pedaços e até mesmo Bossa Nova soariam redundantes, fato longe de qualquer veracidade, a meu ver.

Trata-se de um gênero popular, de fácil aceitação do público médio, por isso é tão visitado por cineastas. Estes, por sua vez, têm de acrescentar à famosa receita um toque especial, um tempero a mais que fará toda a diferença na hora da degustação e da futura dispersão dos demais. Reside aí a magia. Requentar clichês não é o problema; desafio maior é enfeitá-los.

Mara Mourão já havia demonstrado com seu Alô que sua intenção como diretora não é apontar novos caminhos ao cinema brasileiro ou inová-lo. Em uma entrevista, disse que faz filmes para que o público perca o receio em relação à produção nacional. Tende a conseguir o oposto.

Pelo visto, qualidade nem sempre é prioridade quando o assunto é divertir as massas. A Partilha que o diga. O principal problema de Avassaladoras não é sua pretensão, mas o insistente abuso de caricaturas. Mourão não faz o menor esforço para disfarçar que seu novo trabalho é, principalmente, um veículo para que Reynaldo Gianecchini arranque suspiros de suas tietes de plantão. Seu personagem, um playboy que transa com todas e não faz questão de exibir seu charme, é tão raso e gratuito que não faria qualquer diferença se fosse abolido. Sua companheira de escritório, uma perua (como ela mesma se intitula) cujos cabelos sedosos e Q.I. para lá de invejável são seus maiores trunfos, acompanha o galã no desfile de egos inflados e inutilidades pueris.

A princípio, Avassaladoras não parece mal intencionado. Tenta traçar um perfil dos jovens de classe média alta: ricos, fúteis, bem-sucedidos e sozinhos. Simples assim. Mas, claro, eles freqüentam galerias de arte - como se o fato os perdoasse de sua vida medíocre - e comem pastel em barraquinha de beira de praia, mostrando seu lado humano ao lado da escória. Cidadão Kane que se cuide.

Em meio a tantas piadas raquíticas e atores sem o menor timing, Avassaladoras se arrasta, tentando agradar com a trama principal, já que as paralelas vêm e vão sem o menor bom senso. Giovanna Antonelli é uma designer gráfica que está cheia de freqüentar bares com suas amigas à procura de um amor. Desesperada, rende-se a uma agência de encontros. Cena risível é quando a moça tem seu primeiro encontro às escuras, proporcionado pela tal agência, em um restaurante árabe. Termina com as caras e bocas da atriz que, de tão constrangedoras, acabam sendo engraçadas. Mas em meio a Gianecchinis brincando de teatrinho infantil, quem se dá bem mesmo é Marília Gabriela, em uma rápida e injusta participação especial.
Se Avassaladoras tivesse um roteiro esperto, que não atribuísse aos clichês o personagem principal, certamente tiraria melhor proveito da personagem.

Em tempos de comédias românticas ruins de doer como Alguém como Você, Avassaladoras consegue ser pior. Nesses últimos anos, o gênero nunca esteve tão desconexo e mal representado como aqui. Se o alvo for mesmo peruas insuportáveis como as do filme, aconselho-as a levarem o caderninho de anotações: no final, a película faz questão de recitar seu manual do primeiro encontro. Deplorável.


Avassaladoras (Brasil, 2001).
De
Mara Mourão.
Elenco:
Giovanna Antonelli, Reynaldo Gianecchini, Caco Ciocler, Rosi Campos, Ingrid Guimarães. 95 min.
Site Oficial

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Março 2002