Sob a Areia

Sob a Areia
A difícil volta por cima

Por Daniel Libarino

Sob a Areia, novo trabalho de François Ozon, o mesmo diretor de Gotas D´água em Pedras Escaldantes, é um filme sobre o luto, sobre como lidar com incertezas sem afetar a sanidade. A partir da premissa que move o filme, o cineasta lida com poemas e surrealismo, sustentados pela impecável interpretação de Charlotte Rampling. Poemas que só forçam os sentidos e fazem sentido, sobretudo, na cena final, que dá ao espectador a chance de escolha. Até lá, porém, fica evidente a carência do roteiro por elementos mais sólidos, que instiguem o espectador a desvendar o mistério.

Não é exagero dizer que Rampling segura o filme nas costas, afinal, a falta de argumentos de Sob a Areia obriga Ozon a firmar o foco na personagem da atriz, coletando todo o possível para cobrir a falta de consistência da trama. Durante todo o filme, a mulher tenta recomeçar sua vida, freqüentando jantares na casa dos amigos e tentando retomar sua vida amorosa e sexual. Isto após o desaparecimento do marido em uma praia durante uma breve viagem em sua casa no litoral. A esperança de reencontrar o esposo é alimentada ainda por suas inúmeras aparições, apenas no imaginário de Charlotte, que nos é mostrado como se ele realmente estivesse lá, vigiando tudo o que sua mulher anda fazendo.

Este detalhe, de certo modo, acaba por revelar o mistério do filme, devido ao caráter observador do marido que, por exemplo, presencia sua mulher fazendo sexo com outro sem o menor olhar de rancor ou julgamento. Percebe-se, logo, que ele realmente se foi. A penúltima cena, inclusive, na qual a personagem de Rampling conversa com o legista - que lhe diz as provas quase concretas de que um cadáver desfigurado é seu marido - comprova o que o final tenta confundir: a mulher, visivelmente abalada, nega que o cadáver o seja, devido à presença de um relógio que, diz ela, não lhe pertence. Óbvio que tentava enganar o médico - e a ela mesma, inclusive, que, de algum modo, ainda não aceitava a perda. Essa passagem me foi muito clara.

Não há como negar que a última cena desmonta as expectativas, ou pelo menos um pouco. O último ato, aliás, é o mais valioso e o que presta mais dramaticidade a Sob a Areia, pois é quando o roteiro deixa as gorduras e concentra-se no que realmente importa e no que o público espera ao longo de seus longos 94 minutos de projeção. O roteiro não expõe tudo em pratos limpos, principalmente porque sua protagonista não o quer, já que se trata de uma viagem muito pessoal; e do mesmo jeito que ela evita o contato de pessoas próximas ao seu íntimo, suas vontades e preferências, o mesmo vale para o espectador. Melhor assim, deixando um pouco de lado as monotonias desenvolvidas pelo roteiro.

Se Sob a Areia, portanto, não faz bom uso de sua intrigante premissa, resta apenas o culto à protagonista. Ela, por sua vez, não abre mão de suas tristes feições, salientando ainda sua mão firme em relação às preferências de seu trabalho de luto, muito íntimo e pessoal. Charlotte tem grande performance. François, por sua vez, soube captar bem a atmosfera que oscila entre a leve melancolia e a breve poesia, mas com um roteiro desses em seu comando, pouco consegue fazer para desenterrar o miolo do filme. Sob a Areia provoca tanto sono quanto uma leve brisa no rosto em uma tarde deitado em uma praia deserta.


Sob a Areia (Souls Le Sable, França, 2000).
De François Ozon.
Elenco: Charlotte Rampling, Bruno Cremer, Jacques Nolot, Alexandra Stewart, Pierre Vernier
. 94 min.

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Janeiro 2002