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Amores
Possíveis
Conto
moderno da segunda chance
Por
Daniel Libarino

Amores
Possíveis
marca a fase de amadurecimento de uma cineasta
em ascensão, Sandra Werneck. Seu segundo longa
é, na verdade, a parte dois de uma suposta trilogia
sobre relacionamentos, que foi iniciada pelo fraco
Pequeno Dicionário Amoroso, batendo
a marca de 400 mil espectadores nos cinemas. É
um filme melhor, tanto na parte técnica quanto
pelo conteúdo, mais abrangente e dinâmico, que
abre maior possibilidade para discussões sobre,
basicamente, o amor em várias formas.
A narrativa lembra outros romances estrangeiros,
como De Caso com o Acaso, estrelado
por Gwyneth Paltrow. São três possibilidades de
desenvolvimento, entrelaçadas e iniciadas a partir
de um mesmo ponto. Na primeira, Carlos (Murilo
Benício, impecável) é casado, mas não é feliz.
Seu coração ainda pertence à Julia (Carolina Ferraz),
que,há quinze anos, não compareceu à um encontro
numa sessão de cinema. A partir daí, nunca mais
se viram de novo. Eis que, em uma exposição, os
dois se encontram por acaso, e os sentimentos
do rapaz ficam ainda mais aguçados. A segunda
história mostra Carlos vivendo uma relação homossexual
com seu antigo companheiro de jogos de futebol.
Julia, agora, é uma mulher amargurada, que não
se curou da ferida deixada pelo personagem de
Benício, que a abandonou para ficar com o rapaz.
Mas os laços do casal ainda existem, em parte
por causa do filho que ambos tiveram juntos. Já
a terceira mostra um Carlos molecão, que, apesar
dos trinta anos que carrega, ainda vive com a
mãe (Irene Ravache, ótima). Um dia, o "garoto"
vai à uma agência de encontros afim de achar sua
alma gêmea. Através de um bip, ele a encontrará:
quando o mesmo tocar, a garota dos sonhos estará
perto. É aí que (re) encontra Julia, agora uma
artista plástica viajada e descolada.
Com essas três possibilidades, Sandra Werneck
conseguiu tirar de Murilo a melhor interpretação
do cinema que vi este ano. O ator encarna cada
personagem de corpo e alma, com uma facilidade
e sutileza impressionantes. Está excelente. O
resto do elenco porém, não faz feio. Irene Ravache,
como sempre, está impagável e consegue arrancar
ótimas risadas da platéia como a mãe preocupada
com o filhão. Emílio de Melo surpreende, fazendo
o papel do amigo gay de Carlos. Na primeira história,
passa-se por enrustido; na segunda, é assumido
e tem uma relação além dos estereótipos; já na
terceira, é assumido até demais, passando longe
da discrição. Carolina Ferraz, por sua vez, não
chega a brilhar em cena, mas sua atuação está
distante da ruindade.
O
roteiro trata de temas como a infidelidade, o
amor e os sentimentos reprimidos de forma limpa
e bem acentuada. A primeira história deixa um
pouco a desejar, e a terceira se destaca pelo
humor. Mas é através da segunda que visivelmente
percebemos mais dramaticidade e profundidade.
As relações entre dois homens, pais e filhos,
ex-casados e ex-amigos rendem um belo retrato
da dor da perda, do vazio da falta e do medo de
ambas. Tudo é tratado com muita simplicidade e
sinceridade, fruto de um roteiro maduro, direção
idem, personagens bem delineados e performances
marcantes. Não tem medo, ainda, de entrar em temas
um tanto inéditos no cinema nacional, como a homossexualidade,
tratada aqui com incrível naturalidade. É por
sua ousadia e inteligência que faz valer a pena
cada centavo do ingresso. Ao contrário do que
muito críticos andam dizendo, vá por mim, é possível
gostar de Amores Possíveis. Impossível
é não se identificar.
Amores
Possíveis (Brasil, 2001).
De Sandra
Werneck.
Elenco: Carolina Ferraz, Murilo Benicio, Emílio
de Mello, Irene Ravache, Beth Goulart, Drica Moraes,
Alberto Szafran, Christine Fernades. 95 min.
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