|
Amnésia
A
farsa do ano
Por
Daniel Libarino
Cinema
também é ilusão. Para o
bem e para o mau. Desde os primórdios
da arte, inúmeros diretores tentam fazer
com que suas obras adquiram atmosferas encantatórias
que deixem o espectador à margem do roteiro
ruim. Aliás, até agora não
disse nada de novo, só exprimi uma das
funções que deve ser característica
a um competente cineasta. Mas até que
ponto um filme deixa de lado as boas referências
e tornar-se mera tapeação? Qual
o limite entre o intrigante e o manipulador?
A resposta está nas películas.
De Ascensor para o Cadafalso,
de Louis Malle - clássico exemplo do
fajutismo - até A Vida É
Bela, de Roberto Benigni - uma mediocridade
disfarçada de poesia -, a sétima
arte guarda inúmeros exemplos desta cobertura
que pode, ou não, funcionar.
Não sei
qual parte de Amnésia foi
mais frustrante: seu (sub)desenvolvimento medíocre
ou sua conclusão pífia. O filme
não passa de um tapa na cara (no mau
sentido da expressão) que pega carona
em curiosa premissa para, depois, destrui-la
por completo, fazendo o público de tonto.
Estamos naquele velho e discutível caso,
o famoso "cinema de reviravoltas".
Mas esqueça do roteiro magistral de Psicose,
da violência bruta e chocante (mas não
menos fenomenal) de Seven e da
suprema inteligência de Os Suspeitos.
Esqueça, pois Amnésia é
primo pobre e, não, obra-prima.
Mas antes
de mais nada, a primeira coisa a fazer é
(novamente) lamentar mais um título em
português. Logo no início do filme,
o personagem vivido por Guy Pearce deixa bem
claro que não se trata disto, pois tem
consciência de quem é e do problema
que carrega, só não se lembra
dos acontecimentos que ocorreram minutos atrás,
algo que amarga desde o dia em que não
conseguiu evitar o assassinato de sua esposa
na própria casa. Na tentativa, bateu
a cabeça, perdeu a noção
e acordou já com falhas na memória.
Desde então,
começou uma incessante busca atrás
do responsável, prejudicada pela falta
de lembranças recentes. Devido ao problema,
se organiza tatuando pistas em seu próprio
corpo, tirando fotos das pessoas que cruzam
sua vida e escrevendo nos mesmos argumentos-chave
que não o deixem fazer besteira após
o esquecimento repentino. Durante a jornada,
irá se envolver com um homem que o ajuda
no caso (Joe Pantoliano) e uma misteriosa moça
(Carrie-Anne Moss, de Matrix).
Está
aí uma trama que renderia um filmão,
caso não fosse, claro, por Christopher
Nolan. Ao escrever e dirigir Memento,
escolheu um caminho que achou o mais adequado
para manter seu mistério (e, claro, dar
um tommais moderninho): contar a história
de trás para frente. Não deixa
de ser curioso; falho também. Ao abusar
dessa estética, Nolan acabou por fazer
um filme exaustivo e até, por momentos,
previsível, pois como presenciamos o
que aconteceu por último, a cena seguinte
tem somente função explicativa,
já que o fato foi consumado em tela anteriormente.
Sem contar que os personagens (o de Moss em
especial) nunca são bem definidos. Foi
proposital, inclusive, pois o diretor queria
que entrássemos na mente confusa do protagonista
para sentirmos exatamente o que ele sentia.
Proposital, mas injustificável, pois
personagens apáticos e indiferentes não
merecem justificativa.
 |
E
ao final, quando nos é revelado o
mistério desta árdua experiência,
logo vem a conclusão: o que Nolan
tem de esperto, tem de pretensioso. Não
porque Memento teve ótima
bilheteria nos Estados Unidos, nem porque
acabou virando queridinho dos críticos
ao redor do mundo, mas sobretudo porque
usou de técnica abusada, se excedeu
por completo nas propostas que pretendia
e fez de sua obra falsária uma das
mais comentadas e bem-sucedidas do ano.
Benigni já tem um adversário.
Amnésia é puzzle
sem graça, filme de uma piada só,
e tudo o que sugere o título em português:
assistir, e esquecer. |
Amnésia
(Memento, EUA, 2001).
De Christopher
Nolan.
Elenco: Guy Pearce, Carrie-Anne Moss, Joe Pantoliano,
Mark Boone Junior, Stephen Tobolowsky, Jorja
Fox, Callum Keith Rennie. 116 min.
Site
Oficial
|