Alanis Morissette - Feast on Scraps

Alanis Morissette - Feast on Scraps
Festa sobre os restos

Por Rodrigo Kawano

O ano de 2002 definitivamente ocupou a agenda de Alanis Morissette. Depois do lançamento de Under Rug Swept em fevereiro, de gravações de clipes, de uma turnê mundial (voluntariosamente cortada ao meio), de inúmeras aparições em talk shows, e até da participação no programa humorístico Curb Your Enthusiasm (produção da HBO premiada esse ano com o Globo de Ouro), foi, enfim, lançado o prometido URS volume II, em dezembro do mesmo ano. Dirigido e produzido pela própria Alanis, o intitulado Feast on Scraps ("Banquete de Migalhas") cumpre todas as promessas da cantora, e traz ainda vários adicionais. O pacote consiste em um cd de áudio composto de nove faixas - oito das quais até então apenas lançadas em singles, na forma de b-sides - e outro com duas horas e meia de música ao vivo e humor escrachado na forma de filmes pessoais. Um prato cheio que antecede a sua anunciada "saída dos holofotes" da indústria fonográfica. Por quanto tempo? Não se sabe, e, na verdade, não importa. As sobras devem saciar os fãs mais sedentos com facilidade até o seu retorno.


O disco

A promessa de mais peso e vigor, feita em 2001 pela canadense e quebrada em Under Rug Swept, cumpre-se, afinal, em Feast on Scraps. "Fear of Bliss" é uma pérola, abrindo o disco com uma batida eletrônica logo acompanhada por densas guitarras. Esse clima intenso prenuncia a maior parte do novo trabalho, apenas quebrado por baladas confessionais e introspectivas. Enquanto as letras são quase uma marca registrada, praticamente tiradas de seu diário pessoal, a censura mais uma vez é ignorada. O resultado é a velha e esperada honestidade crua de Alanis, aliada a um refinamento musical e pessoal. Essas sobras são tão bem produzidas que mais se encaixam no time das titulares. Apesar dessas canções inegavelmente não se adequarem à unidade temática de seu antecessor, elas claramente se destacam a ponto de merecerem seu próprio espaço. Assim, Alanis cria um clima de antecipação pelo que ainda possa vir a produzir.

"Bent 4 U" pode ser considerada uma complementação de "21 Things I Want in a Lover" (URS), mas dessa vez com elementos que Alanis não tolerará mais em relacionamentos. "Várias horas e de várias maneiras eu festejarei com restos jogados por você / Eu me deprimi por você / E eu me contorci por você / E eu estou farta". Já "Sorry 2 Myself" é uma balada que de certa forma elabora com mais complexidade a temática de "So Unsexy" (URS). Enquanto a influência oriental tanto nos vocais como no instrumental induzem ao intimismo, o toque visceral em "Unprodigal Daughter" e "Sister Blister" direciona a raiva e o ressentimento com o propósito de alívio e cura.

"Offer", através de uma musicalidade simplista, tematiza antagonicamente talvez o sentimento mais complexo abordado no álbum: o fardo de sentir-se responsável pela continuidade de todas as mazelas do mundo quando se tem poder para fazer mudanças. "Simple Together" é a terceira balada, certamente a mais emocional e intensa, fazendo, desta vez, alusão ao fim de um relacionamento duradouro e promissor já fotografado em Under Rug Swept ("That Particular Time"). "Purgatorying" finaliza a apresentação das novas canções com mérito. As influências orientais novamente tomam lugar e gradualmente constrói-se tensão e angústia. Alanis retrata o comportamento automático de se anestesiar através da televisão, entretenimento e atividades quaisquer, ao invés de sentir e procurar entender a vida, e talvez a dor, divergindo-se inconscientemente daquilo que realmente é importante. "Hands Clean" encerra Feast on Scraps oficialmente. Segundo a cantora, essa versão acústica revela uma tristeza inexistente na versão original.


O DVD

Uma coisa é clara: se não ficou explícito em Jagged Little Pill, Live que Alanis Morissette tem atitude no palco, Feast On Scraps veio para reafirmar que o rock percorre suas veias. Mas esse DVD é muito mais do que um show. Enquanto a entrevista que recheia os intervalos entre algumas das 19 músicas adiciona-lhe um toque de documentário, os vídeos caseiros revelam um dom artístico que vai além da música: Alanis é, de fato, uma atriz hilária.

No palco, Morissette é inquieta, visceral, expressiva e desprovida de autocensura. Enquanto em algumas canções ela anda de ponta a ponta do palco sem parar, com passos ora desengonçados, ora graciosos, em outras, ela simplesmente pára na frente do microfone, dançando com mãos e pernas inquietas.

Os sucessos são entretenimento garantido. "Hand In My Pocket" e "All I Really Want" entoam sua famosa gaita com muita inquietação e energia, enquanto "You Oughta Know" anima o público com uma catarse que direciona Alanis a um estado quase de transe, rendendo-lhe uma ovação geral. "Uninvited" permanece uma das obras-primas da canadense, com o adicional de uma performance de peso de sua nova banda e a vibração intensa dos fãs. Apesar de "Hands Clean" ser seu sucesso mais recente, e um dos mais festejados, é "Ironic" que produz o maior karaokê.

Os hits são bem representados, muitos com musicalidade bem diferente dos respectivos álbuns, mas são as músicas menos conhecidas que fazem a canadense brilhar mais. "Purgatorying", dividida em três partes, é estonteante, e, por incrível que pareça, melhor que a ótima gravação de estúdio. O ambiente de textura onírica é, então, quebrado pelo ressentimento feroz de "Unprodigal Daughter". Enquanto "Flinch" pode estar em sua melhor versão já ouvida ao vivo, mais sentimental e beirando a perfeição sonora, "Sympathetic Character" é tão desconcertante quanto angustiante, tanto na distorção das guitarras e nos efeitos sonoros quanto na voz quase descontrolada, e também no final, com a liberação de toda a raiva através de um ritual de movimentos nada comum. Como se não bastasse, ainda há três vídeos da produção de Under Rug Swept, um link para um site exclusivo com mais material inédito e uma galeria de fotos enviadas por fãs. Um verdadeiro deleite.

Categoricamente, ao mesmo tempo em que Feast On Scraps mostra o lado escrachado da cantora, ela também aparece reflexiva e até chorando na composição de "Surrendering". Nas suas próprias palavras: "As lacunas estão preenchidas com filmagens pessoais desde o filosófico até o desavergonhado (como uma tentativa de provar aos meus futuros netos que eu, de fato, já usei a palavra 'ereção')"
.

<<< Voltar
Março 2003