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Aimee
Mann - Bachelor No.2 or The Last Remains of the
Dido
O
pequeno Dodo contra as gravadoras
Por
Adriano Ferreira

Aimee
Mann nunca deu sorte com gravadoras. Desde o seu
primeiro disco solo, Whatever, a cantora
enfrenta problemas com relação a seus discos.
Com Bachelor
No. 2 não foi diferente.
A cantora gravou o álbum inteiro, apenas para
que a Interscope o rejeitasse: "Queremos algo
mais pop", disseram os engravatados. Aimee não
teve dúvidas: pegou suas músicas, mandou a gravadora
à merda e fundou seu próprio selo (ironicamente
chamado SuperEgo), lançando Bachelor No. 2 inicialmente
apenas pela Internet. Mas o talento da cantora
falou mais alto: com o sucesso da trilha
de Magnólia, Aimee acabou
por lançar seu disco nas lojas. Resultado: seu
disco mais vendido até hoje - e lugar garantido
nas listas de melhores álbuns do ano 2000.
Com um ano de atraso, o disco chega ao Brasil.
Que os apreciadores de boa música agradeçam à
Sum Records: Bachelor
No. 2 or, The Last Remains of The Dodo
é magnífico, o auge da carreira da cantora até
aqui. Aimee é considerada alternativa (e com certeza
é), mas faz pop dos bons, bem-feito, bem tocado,
com letras fenomenais.
Basta ouvir a faixa de abertura, "How
Am I Different?", e tirar a prova: ritmo
contagiante, guitarras precisas e a voz sempre
marcante de Aimee. A cantora é dona de um timbre
único, que injeta profundidade a qualquer coisa
que canta.
E ela não canta qualquer coisa. "Just one question
before I pack: when you fuck it up later, do I
get my money back?", ela diz, cínica, dirigindo-se
a alguém cego o suficiente para não enxergar o
fim da relação. "Nothing Is Good Enough"
só explicita mais o talento de compositora de
Aimee: ela pode estar cantando tanto para um amante
egoísta como almejando um dos executivos que infernizaram
sua vida. "O que começou com tanta animação,
agora eu termino com alívio". Tirem suas próprias
conclusões.
"Red Vines" é a perfeição pop,
três minutos de puro deleite. Se o mundo fosse
justo, teria sido um hit matador, tamanha a pegada
pop que há aqui. Salta aos ouvidos o cuidado com
a produção: tudo é muito bem encaixado, nenhum
instrumento soa deslocado. Vale destacar também
o extremo cuidado com os backing vocals, que enriquecem
todas as músicas.
Elvis Costello comparece como co-autor de "The
Fall of The World's Own Optimist", mais
uma aula de ironia da cantora. A bela "Satellite"
é um dos momentos mais fofos do disco, com um
piano que dá um ar jazzístico à música.
"Deathly", que já era um dos
melhores momentos da trilha
de Magnólia, continua
arrasadora. Com versos cortantes e angustiantes,
a música emociona com sua fragilidade: "Quando
um ato de bondade pode ser mortal", diz o
refrão. O belíssimo vocal de Juliana Hatfield
ecoando ao fundo reforça mais a sensação de tristeza.
Quando entram os solos de guitarra, então, sai
de baixo - ou entregue-se ao mar de melancolia
que invade tudo.
"Tudo que eu preciso agora é de alguém com
cérebro e conhecimento, para me dizer o que eu
quero...". Assim Aimee entra na pele de uma
recém-formada, com todas as suas incertezas, em
"Ghost World". Na fenomenal "Calling
It Quits", como o próprio título diz,
Aimee solta um "chega" em relação às tretas com
gravadoras - nunca uma briga soou tão classuda.
"Driving Sideways", alegre e
ensolarada (pelo menos no ritmo), é outra pérola
que embalou Magnólia - ouça
e saia cantando junto. Já "Just Like Anyone"
é um pequeno e singelo pedido de desculpas a alguém
do qual Aimee não foi "tão boa amiga" quando ele
mais precisava.
Num ato de genialidade, a cantora escolheu a brilhante
"You Do" (outra reprise de Magnólia)
para fechar o álbum. Com sua sensação de melancolia
e vazio, a música funciona muito bem como "saideira",
deixando uma sensação agridoce no ouvinte. "Baby,
anyone can change/ And you do/ You really do",
são as palavras finais de Aimee. Se a cantora
mudou, com certeza foi para melhor. E deve estar
rindo dos executivos engravatados até agora.
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