Inteligência Artifcial

Inteligência Artificial
Medíocre e injusta semi-homenagem

Por Daniel Libarino

Inteligência Artificial foi um projeto almejado por Stanley Kubrick desde
os anos 70. Como naquela época era impossível criar o mundo fantástico e detalhista pensado por ele devido à tecnologia limitada, o mestre ficou alimentando o sonho e renovando as idéias com o passar dos anos. Conversava muito com seu amigo Steven Spielberg, mas não deixava que nenhum detalhe imaginado vazasse à imprensa. Anos depois, após desistir várias vezes da direção de A.I. (e de presenciar as maravilhas digitais concedidas por Jurassic Park), finalmente decidiu concretizá-lo quando terminasse as filmagens de "De Olhos Bem Fechados". Pena que este foi seu último triunfo, morrendo logo após a fase final das gravações. Pena, pois em sua homenagem, as imagens foram consumadas por Spielberg. Pena.

O que seria do homem se, um dia, percebesse que sua suposta supremacia e inteligência estivessem egocentricamente abaladas por um invento próprio? Não é de hoje que discute-se a dominação do ser humano pela máquina, do quão longe iria a ciência para viabilizar projetos que, invariavelmente, tomariam conta de seu próprio criador. Ou que, ao menos, traria novas possibilidades a um mundo no qual seus habitantes não conseguem - ou agüentam - viver em mínima harmonia. A ambição tem como obstáculo as conseqüências (inconseqüentes ou não) do chamado livre arbítrio desenfreado, visionário e, acima de tudo, assustador e vazio.

No século 21, após o derretimento das calotas polares na Terra, que acabou por inundar inúmeras cidades e matar milhares de pessoas, várias espécies de robôs (chamados "mecas") são postas no mercado para suprir necessidades humanas - uma delas, doméstica, inclusive. Surpresa alguma não é que o fato acaba por fugir do controle. Eis que surge a idéia de uma nova série capaz de algo extraordinário e de revolução e discussão prolongadamente inimagináveis: amar. Basta seu dono recitar um conjunto de palavras-código para que sua nova aquisição se transformasse, quem sabe, num membro da família.

Isto porque, no futuro imaginado, o controle de natalidade é extremamente rigoroso, e quem quisesse ter um filho teria que passar por uma espécie de sorteio. Com o fato em vista, os criadores prevêem que cada vez mais casais optem pela opção de uma criança artificial capaz de sentir amor incondicional pelos futuros "pais". É só dizer o código. E este é o caso de Monica Swinton (Frances O´Connor, de "Endiabrado" e "Palácio das Ilusões"), que, devido ao coma do filho, recebe de presente do marido o primeiro modelo do robô dotado de inteligência artificial e com o poder dos sentimentos humanos, David (Haley Joel Osment).

O choque inicial da mãe é inevitável (o do espectador também). David é um ser que está com um pé na robotização e outro na "humanização". Ao mesmo tempo que mostra-se obediente em suas atitudes mecanizadas, exprime um olhar
e uma sensação desconcertantes para quem o cruza. Tudo isto sem haver a tal transformação. Depois dela é outra história, e é nela que começa um dos grandes e verdadeiros dilemas de Inteligência Artificial: como pode uma alma viver presa em um corpo que não lhe pertence? Até que ponto agüentaria alguém manter-se preso dentro das próprias limitações que lhe impuseram? Como aprender? Como aceitar? Como não aceitar?

É incrível a infinidade de possibilidades e discussões que a premissa de A.I. possibilita. Mas suas bifurcações não param só nas palavras, traduzem-se também em imagens. No primeiro ato do filme, Spielberg presta sua homenagem ao precursor das idéias propostas, em cena marcante: a personagem Monica, que visita seu filho em coma, numa espécie de encubadora. Reparem na sutileza da movimentação da câmera, nas cores, no branco absoluto que dá fundo à ambientação, transmitindo todo o vazio e sentimento real que dão força à moça. Lembra 2001, e é a cena mais justa da obra, umas das únicas que dão a estranha sensação de estarmos vendo uma realização contínua do mestre.

Mas Inteligência Artificial é mais Spielberg que Kubrick. Infelizmente. O segundo ato, no qual David irá conhecer Gigolo Joe (Jude Law), um meca-amante que o ajudará em sua incessante busca por respostas, é mais para manter o público médio grudado na poltrona (esta foi minha impressão). Não que seja desnecessário - pelo contrário -, mas tira do filme a atmosfera sutil que lhe foi atribuida para dar início à seqüências de aventura que, aliás, estão a cara de Spielberg. Nada, claro, comparado ao péssimo final.

Polêmico, abusado, inacreditável. O terceiro ato de A.I. só reafirma a predileção (leia-se regra) de Hollywood por desfechos certinhos e quadrados. Não dá para perdoar Steven Spielberg por ter arrastado tanto uma história que poderia ter tido um final que iria, em partes, até as últimas conseqüências (não esquecendo, claro, da fé, poesia e melancolia presentes). Não entendo como preferiu deixar de fechar a jornada de David com esperança, determinação e mistério para terminar com o interminável - e o ridículo. Resolveu voltar às origens do sucesso e exprimir toda sua falta de coragem e respeito à Stanley Kubrick. Sim, porque E.T. deveria ter ficado no passado, mas o diretor não quis assim, e acabou com o filme.

Haley Joel Osment conseguiu o balanço perfeito entre o quase-humano e o quase-robô, provando maturidade suficiente para alimentar as bolsas de apostas para o Oscar 2002. Merece, pois apesar do exagero de seu personagem em algumas cenas, tem o mérito de segurar Inteligência Artificial nas costas, e de fazer valer o ingresso. Spielberg, por sua vez, deveria aposentar-se, pois acabou por fazer uma das obras mais injustas da história do cinema. Com Kubrick, provavelmente, seria uma obra-prima. Com ele, porém, virou um sofrível arquivo de idéias para lá de geniais. É assistir à primeira parte, e ir embora do cinema.

 

 

Além de cego, o amor é burro

por hugo

Inteligência Artificial chamou muita atenção antes mesmo de estar pronto devido à morte do seu idealizador, Stanley Kubrick, que já havia passado a responsabilidade da execução para Steven Spielberg.

Como sempre, o pessoal está olhando para o outro lado quando algo interessante acontece, pois quem iniciou ou terminou determinado filme, quem escreveu ou modificou determinado roteiro, não me interessa tanto quanto o resultado final... Principalmente se ele é inovador, corajoso e bom. Bem, sinto muito se te dei esperanças, mas esse não é exatamente o caso de A.I..

Um argumento e o seu roteiro não precisam ser exatamente originais para que sejam criativos, pois tudo depende da abordagem. Com a idéia mesmo de investir em um conto de fadas mais adulto (e inspirado em uma história de Brian Aldiss), A.I. mostra um futuro indeterminado no qual os andróides criados beiram a perfeição e têm a única finalidade de servir o homem, seja de que forma for, até como o(a) parceiro(a) sexual perfeito. Nesse futuro, a procriação é controlada pelo Estado devido à super-população e um casal tem que pedir permissão para ter um filho. Pensando em resolver problemas como esse, uma das maiores empresas criadoras destes andróides decide criar um que possa amar. Escolhem, então, para o teste, uma família cujo filho natural está em estado de criogenia, esperando a cura para a sua doença.

É entregue a eles, então, David, a criança mecânica que substituirá o filho quase perdido. Disse "quase" porque ele volta e David descobre o quão difícil pode ser a vida de um bastardo, mesmo que ele não seja de carne e osso. Aliás, David "pensa" diferente e imagina que se conseguir se transformar em um menino de verdade, conseguirá ser amado por sua "mãe", pois ela lhe contou a história de Pinóquio e ele acredita que a Fada Azul possa resolver o seu problema (de Pinóquio, além da estrutura, são tomados vários personagens, se bem que nem todos são bem aproveitados).

Ok, partindo deste princípio, a idéia era discutir de forma profunda o amor. Monica, a mãe de David, é avisada de que, uma vez ativado o programa que permitirá a David amá-la, a coisa é sem volta, será para sempre. Sim, pois David é capaz de amar a quem lhe mandaram, mas não é capaz de amar a si mesmo, não tem o menor amor próprio. Ele amará de uma forma incondicional, sem questionar, pois, mesmo tendo consciência de que não é humano e de que esse amor não é "natural", David acredita nele, sem se importar se Monica o merece. Pelo contrário, ele sim, fará de tudo para ser merecedor deste amor, obsessivamente. Mas será esta a forma perfeita de amor? Provavelmente não, pois é mais do que um ser humano pode suportar. O que dirá, então, retribuir.

Obviamente Monica não consegue suportar a situação, mas sente-se responsável por esse amor e, quando o conflito chega ao auge, ela decide abandoná-lo em uma floresta (como nos melhores contos de fadas), para evitar que David seja desativado, numa das seqüência mais dramáticas do filme. E aqui o termo vai sem nenhuma ironia, pois desde o começo do conflito familiar até este ponto, A.I. é terror psicológico puro, dos melhores.

Neste aspecto, faltou coragem a A.I. (ou a Spielberg, talvez) para ir mais fundo e explorar o absurdo da situação que, claro, era a mais humana possível. Afinal, por que amamos? Quem nos programa para isso? Até que ponto estamos certos em acreditar no amor?

Soube por aí, que no roteiro original Kubrick deixava a situação pior, mostrando uma Monica alcoólatra e mais depressiva, claramente indigna de um amor "puro". Resta, portanto, a polêmica bobinha sobre se Spielberg soube ou não acabar a história quando deveria, no momento em que David finalmente encontra a Fada Azul.

Quanto a isso, digo que, como drama, A.I. é de certa forma inovador e inteligente, mas não tem coragem de ir até o final, conseguindo, no entanto, ser bom. Como ficção científica, A.I. não chega a inovar nem discutir de forma inteligente o que é proposto. Tanto que tem que ir além do final para dizer algo, mas tem o mérito de mostrar um futuro e tratar temas recorrentes à ficção científica de um modo perigoso por ser possível cair no ridículo dentro de algum tempo.


Inteligência Artificial (A.I., EUA, 2001).
De Steven Spielberg.

Elenco: Haley Joel Osment, Jude Law, Frances O´Connor, Sam Robards, William Hurt, Jake Thomas, Brendan Gleeson. 146 min.
Site Oficial

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Outubro 2001